A desistência de Mário Covas de candidatar-se à reeleição decorre, não há dúvida, de desencanto pessoal com Fernando Henrique. A dedução é de gente da cúpula do PSDB, que conclui: ‘‘Se Fernando Henrique é a causa do problema, é também a única solução’’.
Daí a importância debitada ao encontro dos dois. Covas, nas queixas que faz, diz que seu governo viveu três anos de desgaste e expectativa, submetido a uma saia justa financeira. A intervenção de Banespa, por exemplo, contrariou compromisso de campanha de Covas.
Poderia ter acontecido antes de sua posse - e ele até desejou que assim fosse. Mas aconteceu bem depois, não obstante sua resistência em evitá-la. Não bastasse, houve também o que considera traição política do seu amigo e correligionário Fernando Henrique: o pacto de não-agressão com Paulo Maluf, selado em jantar reservado, há dois meses, no Palácio da Alvorada.
Fernando Henrique negou o pacto e negou alianças eleitorais, mas o certo é que, a partir de então, Maluf livrou-se da CPI dos Precatórios. Covas não se conforma com isso e não vê como evitar a associação dos fatos: o jantar no Alvorada e a escapada da CPI, chance preciosa de tirar o ex-prefeito de cena por alguns anos.
De quebra, o ministro Kandir impôs a perda de receita de ICMS, com as isenções às exportações. Isso representa perda de R$ 800 milhões, verba com que Covas contava para deflagrar a estratégia César Maia - alusão ao ex-prefeito do Rio, que, após apertar o cinto nos três primeiros anos de mandato, acumulou caixa e marcou seu último ano de administração com inaugurações de obras em série e reelegeu com folga seu sucesor. Covas preparava-se para pôr em cena sua porção Maia quando ficou sabendo que não receberá mais os R$ 800 milhões.
Sem verba, sem apoio do chefe (FHC) e com o desgaste de três anos de sufoco financeiro e orfandade política, Covas sabe que sua candidatura tem tudo para fracassar. Suas suspeitas não são uma suposição vaga, alimentada pelo pessimismo. Têm base concreta.
O governador dispõe de pesquisas que dão amplo favoritismo a Paulo Maluf. São pesquisas colhidas na sequência da CPI dos Precatórios, quando o ex-prefeito estava sob intensa exposição negativa na mídia. Se, naquelas circunstâncias, conseguia manter-se à frente do governador, que dirá após o início da campanha? A pesquisa mais favorável a que Covas teve acesso o dava com empate técnico com Maluf, na base de 41% (Maluf) a 40% (Covas).
Se a verba do ICMS existisse, haveria chances de reverter a situação. A estratégia de César Maia é o exemplo recorrente. A desistência de Covas, pois, antes de ser gesto emocional, é gesto pragmático, baseado em números: nos das pesquisas e nos do déficit de caixa.
Saindo antes, preserva sua liderança, escapa de uma hecatombe eleitoral - e arranha o prestígio político de Fernando Henrique. A menos que o presidente vire a mesa e decida atendê-lo, o que não é impossível, mas é improvável.

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