Não é preciso ser nenhum prodígio em análise política para concordar com a avaliação do senador Roberto Freire (PPS-PE) de que a chapa Lula-Brizola à presidência da República é restritiva. Roberto Freire vai mais adiante. Diz que é tudo com que sonha Fernando Henrique para garantir mais um mandato presidencial.
Também quanto a isso, não há dúvida. A chapa Lula-Brizola não une sequer a esquerda - e prova disso são as críticas que recebe de políticos como Roberto Freire, Miguel Arraes (PSB), José Genoíno (PT) e Paulo Delgado (PT). Não atrai alianças ao centro e empurra dissidentes potenciais para os braços da candidatura oficial.
O discurso de Ciro Gomes, que tenta viabilizar-se como candidato alternativo - uma terceira via entre o situacionismo e o esquerdismo -, é exatamente nesse sentido: é preciso construir uma aliança a partir do centro para a esquerda, porque o inverso (isto é, da esquerda para o centro) é inviável.
Ciro diz que, mesmo admitindo que se trata de uma injustiça, vinculou-se a imagem de Lula e Brizola ao contexto pré-estabilização da moeda: isto é, ao caos financeiro pré-real. O PT, ao combater abertamente o Plano, no início de sua implantação, no curso da sucessão presidencial passada, tem certa responsabilidade nisso.
Foi no mínimo descuidado, do ponto de vista estratégico. Lula, segundo esse raciocínio, continua sendo uma liderança prestigiada e respeitável, mas que não infunde confiança à classe média como continuador de uma obra, no caso o real, a que se opôs desde o início.
Para Fernando Henrique, não seria difícil, diante da chapa Lula-Brizola, repetir a polarização da eleição passada. Isso resultaria num debate sucessório superficial e vazio, que o pouparia de maiores dores de cabeça e de explicações mais complicadas das contradições de seu governo. Quanto a isso, Ciro Gomes seria infinitamente mais incômodo.
Roberto Freire sustenta que somente alguém que rache o campo conservador - Ciro Gomes, José Sarney ou Itamar Franco - terá condições de derrubar Fernando Henrique. No mínimo, iria forçá-lo a um segundo turno, quando teria que recorrer a alianças mais progressistas que as atuais. Um candidato de esquerda, com trânsito apenas na esquerda - casos de Lula e Brizola - unirá o centro à direita e repetirá o passeio eleitoral de 1994.
Freire está convicto disso. Miguel Arraes também. Ciro (até porque é beneficiário desse ponto de vista) idem. Lula, Brizola, José Dirceu, Milton Temer estão convictos do contrário. Não surgiu entre eles nenhum discurso intermediário. A irritação, ao contrário, vai num crescendo e os torna pródigos em ofensas recíprocas, que aprofundam o fosso que os separa. Se não surgir logo uma ponte que os una, tudo indica que a esquerda, mais uma vez, marcha desunida para a sucessão presidencial.
Fernando Henrique, claro, acha tudo isso formidável.

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