A decisão do governador Mário Covas de não se candidatar à reeleição enseja algumas leituras. Uma delas é de que o cargo de governador perdeu conteúdo diante da camisa-de-força financeira a que os estados estão submetidos com o processo de rolagem da dívida.
Para uma liderança política do porte de Covas, é insuportável estar sendo monitorado por técnicos do Banco Central, da Fazenda e do Planejamento. Um dos alvos de sua fúria é o ministro do Planejamento, Antonio Kandir, em virtude das isenções fiscais que concedeu aos exportadores, cortando receita de ICMS dos governos estaduais.
Covas não gostou e não encontrou em Fernando Henrique apoio às suas queixas. Isso ampliou a área de atritos entre os dois, que já havia chegado a níveis delicados quando do encontro entre Paulo Maluf e o presidente, na intimidade do Palácio da Alvorada, três meses atrás.
Maluf e Fernando Henrique, segundo se informou na ocasião, haviam negociado a sucessão paulista. Em troca da neutralidade do presidente, Maluf dispunha-se a apoiá-lo à reeleição.
Covas acusou o golpe - idem Sérgio Motta e José Serra. Passaram a exigir, em uníssono, que Fernando Henrique apoiasse explicitamente o futuro candidato do PSDB, que todos imaginavam que seria Covas. Um parlamentar especialista em política paulista sugere que não se considere ainda como fato consumado a desistência de Covas.
Ele, de fato, não é de blefar, mas é homem de impulsos e explosões - e, como tal, pode rever decisões tomadas em meio a pesadas descargas de adrenalina. O PSDB não se conforma com sua decisão e tudo fará para revertê-la. Covas está magoado com o partido, mas pode ser sensível aos apelos. Não o sendo - e alguns assessores seus dizem que é melhor raciocinar por aí -, deixa uma lacuna difícil de preencher.
Não é impossível, mas é improvável que Serra, recém-derrotado à prefeitura paulistana, se disponha a uma nova aventura, contra o mesmo malufismo que o liquidou ainda no primeiro turno. Há o ministro Sérgio Motta, que exibe grande apetite político, mas que possui arestas consideráveis, sobretudo junto ao PFL.
Motta, que está sendo processado por Paulo Maluf no STF, por declarações injuriosas, aprofundaria as dificuldades de Fernando Henrique com a sucessão paulista. Como manter-se neutro tendo alguém como Motta - ministro, amigo e sócio - na disputa? Isso sem falar, claro, nas dificuldades eleitorais propriamente ditas.
Não há sinais de que Motta desfrute de popularidade. José Serra é parlamentar respeitado, mas, não obstante o apoio explícito e entusiástico do governo federal na eleição municipal, não mostrou grande desempenho nos palanques. Tudo isso, claro, preocupa o PSDB.
Daí o empenho em resgatar Covas de sua renúncia. O governador, no entanto, é conhecido por ser um político teimoso. Mas, como em política não há não que não possa virar sim, a crise está apenas no começo.

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