Ruy Fabiano
O custo da rebeldia
A rebeldia das bancadas governistas na Câmara e no Senado em relação às eleições para a mesa diretora é apenas aparente. O governo sabe que nenhum dos postulantes com chances efetivas pensa em lhe fazer oposição ou mesmo em dificultar o êxito da emenda da reeleição.
Vença Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) ou Íris Resende (PMDB-GO) no Senado, Michel Temer (PMDB-SP) ou Wilson Campos (PSDB-PE) na Câmara, o governo continuará hegemônico nas duas casas. A questão, porém, está no custo político da rebeldia.
Ela subverte prazos e encarece o apoio. Na medida em que as presidências de ambas as casas já estavam definidas, com os respectivos cargos das duas mesas diretoras devidamente distribuídos, o governo se ocupava da reforma do ministério, que está sendo cogitada exclusivamente para garantir maioria no Congresso e aplacar a fome de cargos de seus aliados. A indefinição das eleições no Congresso o obriga, no entanto, a esperar.
O quadro no Senado é mais ameno. Trata-se da disputa de poder entre os dois principais partidos de apoio ao governo: PMDB e PFL. O PMDB é majoritário, mas em função de acordo que lhe garantiria o comando da Câmara, cederia a presidência do Senado ao PFL. As bases do partido, no entanto, mudaram de idéia. Afinal, se o partido é majoritário nas duas casas, por que não camandá-las conjuntumente?
É a partir daí que a candidatura Íris Resende tornou-se irreversível, com grandes chances de atropelar o antes favorito Antonio Carlos Magalhães. Íris, no entanto, não causa qualquer preocupação a Fernando Henrique. É, de certa forma, mais fácil de administrar que Antonio Carlos Magalhães.
Na Câmara a história é outra. O que está em curso é a revolta do baixo clero, apelido que designa a maioria parlamentar menos conhecida do público e excluída do trânsito palaciano. A canditatura Wilson Campos, vista a princípio como excêntrica e fictícia, fortaleceu-se no ressentimento das bancadas governistas. O próprio Wilson Campos esteve com Fernando Henrique quando decidiu disputar o cargo e foi estimulado a prosseguir. Claro, o presidente considerou-o um delirante, que acabaria desistindo para poupar-se do ridículo.
Não contava com a rebelião do baixo clero, que longe de conspirar contra a reeleição quer apenas melhor ajustá-la a seus interesses. Mesmo a hipótese mais remota de vitória de Prisco Viana, do PPB de Maluf, não significa perda do controle da maioria. Significa que a interlocução do governo na casa terá que ser revista e que o custo da maioria será reajustado.
Os atuais negociadores do governo, a começar pelo ministro Luís Carlos Santos, de Assuntos Políticos, estão em processo de desgaste junto às bancadas. O baixo clero quer nomear seus próprios interlocutores e aposentar os cardeais do governo.





