Ruy Fabiano
O ex-ministro Ciro Gomes indigna-se em ser comparado a Fernando Collor de Mello, o que tem acontecido com alguma frequência. De fato, há muita coisa distinta entre os dois, mas não há dúvida de que há também muitas semelhanças. Vamos por partes.
As semelhanças começam na idade e no tom agressivo das críticas, às vezes ao nível da leviandade. Collor despontou meio de surpresa na cena nacional com uma candidatura presidencial tida como improvável, no início de 1989. Tinha 39 anos - a mesma idade de Ciro hoje. E, como Ciro, vinha do conservadorismo: Arena, PDS, PMDB.
Quando decidiu peitar o governo Sarney, concentrando sua retórica na pessoa do presidente da República, Collor rompeu com seu partido, que era governista, o PMDB. Serviu-se de uma legenda de aluguel, o Partido da Juventude, para lançar-se candidato a presidente. Aceito pelo PJ, apoderou-se dele.
Transformou-o no PRN - Partido da Reconstrução Nacional, que passou a existir em função de sua candidatura presidencial. Deu início então a sua espantosa epopéia. As semelhanças, em síntese, são essas. Agora, as diferenças. Collor era claramente um político despreparado, cuja carreira se restringia ao âmbito da província. Não estava articulado nacionalmente, o que tornava sua candidatura presidencial uma aventura. Com Ciro, a situação é um pouco diferente.
Seu currículo é bem mais consistente, não apenas em relação à sua formação acadêmica como também à natureza dos cargos que ocupou e ao desempenho neles exibido. Foi, como Collor, prefeito da capital de seu estado e, a seguir, governador. Só que, segundo consta, teve bom desempenho administrativo, ao contrário de Collor.
Ocupou o Ministério da Fazenda nos meses finais do governo Itamar, em substituição a Rubens Ricupero, flagrado em declarações de uso eleitoral da máquina em benefício de Fernando Henrique. A nomeação surpreendeu - não apenas por se tratar de alguém estranho aos meios financeiros do eixo Rio-São Paulo, mas por sua idade: tinha 36 anos.
Foi aí que começou a exibir uma retórica truculenta, peitando sobretudo o meio industrial paulista. Indispôs-se com gente de peso e datam daí suas divergências com Fernando Henrique, candidato apoiado por aqueles personagens que Ciro criticava. Foi preciso a intervenção de Itamar para que Ciro moderasse o verbo.
A seguir, o ex-ministro foi para Harvard, aperfeiçoar-se em economia. Lá, aproximou-se do professor Mangabeira Unger, ideológico do PDT, que lá leciona, e passou a assinar artigos críticos na imprensa ao governo Fernando Henrique. Há pouco mais de um mês, foi convidado pelo governador Miguel Arraes a ingressar no PSB. Ciro não é socialista, mas isso, claro, tornou-se um detalhe. Arraes quer expandir o partido e nada melhor que engajá-lo na sucessão presidencial.
PT e PDT avisaram que estão fora. Aliança só com Lula na cabeça. Ciro topa uma aliança de centro-esquerda sem eles. E afia o verbo contra Fernando Henrique, com quem diz, em tom sempre furioso, que não conversa em hipótese alguma. E aí não há o que discutir: parece-se mesmo com Collor.





