Política e marketing, já há algum tempo (para o bem ou para o mal) caminham juntas. A figura do marqueteiro, aquele personagem sem ideologia ou partido que decide como o político deve se apresentar, quando deve sorrir ou se aborrecer e até mesmo o que dever dizer ou silenciar, deixou de estar restrita aos períodos pré-eleitorais.
É presença permanente, que ascendeu ao nível de conselheiro. As empresas do ramo multiplicam-se e exibem solidez. Pode-se dizer hoje do marketing o que, antes, se dizia da política: que está em tudo. Tudo é marketing - até as críticas ou esnobações ao marketing.
Há algum tempo, Paulo Maluf trocou os óculos por lentes de contato, seguindo conselhos de assessores mercadológicos. As lentes tornariam o seu visual mais leve, jovem e simpático, valorizando sua imagem de político ativo e incansável.
Por razões semelhantes, o presidente Fernando Henrique mudou a armação de seus óculos. Adotou modelo mais fino, que valoriza mais sua fisionomia e o rejuvenesce. Houve um tempo em que Lula andou fazendo regime vegetariano, empenhado em reduzir as dimensões de seu ventre e apresentar-se com um visual mais clean. Chegou a exibir uma aparência mais elegante, mas, ao que parece, desistiu da estratégia.
São detalhes aparentemente insignificantes, mas que, segundo os especialistas, exercem considerável influência subliminar no ânimo do público. A julgar pela cobertura que esses acontecimentos recebem da mídia, não há muito o que discutir: o marketing está mesmo em tudo.
Sinal claro disso é a candidatura Ciro Gomes pelo PSB. Antes mesmo que exista, já é apresentada como fato consumado, a ameaçar estruturas. A partir daí, Ciro, que saíra de circulação desde o final do governo Itamar Franco, passa a ocupar solidamente o noticiário.
É apresentado como um perigoso dissidente, cuja saída do PSDB põe em risco os planos eleitorais de Fernando Henrique e frustra as negociações das oposições em torno de uma candidatura única. Ciro fez tudo certo, dentro das regras do marketing, cuja essência pode ser traduzida na clássica sentença de Benedito Valadares (ou seria do Alkimin?): ‘‘O que vale é a versão, não o fato’’.
Nélson Rodrigues foi mais longe: ‘‘Se os fatos estão contra mim, pior para os fatos’’. Os fatos estão contra a versão da candidatura de Ciro Gomes - mas, em princípio, pior para os fatos.
Senão, vejamos. Ciro não é candidato a presidente da República pelo PSB - e por um motivo simples: não é sequer membro do PSB e seu possível ingresso está sendo questionado pela seção cearense do partido, exatamente a que o filiaria.
Ciro não é socialista: nunca foi e é improvável que venha a sê-lo justo quando o socialismo é dado como morto. Mais: continua às mil maravilhas com seu padrinho político, o governador Tasso Jereissati, empresário de formação neoliberal, que garante que ele não deixa o PSDB e acha engraçadíssimo o noticiário que diz o contrário.
Deixando ou não, o certo é que Ciro mostrou profundo talento para o marketing: sem ocupar cargo e sem fazer rigorosamente nada, está há três semanas nas manchetes. Um talento.

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