Tancredo Neves costumava dizer que não se faz política sem vítimas. Poderia ter acrescentado: e sem insultos. É pelo menos a impressão que se tem diante do nível do debate sucessório em curso entre as oposições. Nada indica, para dizer o mínimo, que haverá convergência de posições e interesses. E sobram vítimas e insultos.
As divergências traduzem-se em coices recíprocos. Ciro Gomes está no centro das controvérsias. Ele frustra o sonho petista de candidatura única de Lula, que o critica por onde anda. Irrita Leonel Brizola, que o vê como um político oportunista, ligado ao poder dominante. E enfurece o PSB do Ceará, que o vê como um adversário clássico, que chega ao partido de pára-quedas, interessado apenas em uma plataforma para sua candidatura. Tal como Collor fez com o falecido PRN.
Sobram críticas para o governador Miguel Arraes, patrono da candidatura Ciro e presidente nacional do PSB. Arraes, que já conseguiu atrair um peixe graúdo para o partido, a ex-prefeita Luiza Erundina, estaria menos interessado na sucessão presidencial e mais na expansão da legenda que preside, que possui escassos representantes.
Nesses termos (é a acusação que lhe fazem), pouco lhe importaria a circunstância de estar frustrando o ideal de candidatura única oposicionista contra Fernando Henrique ou de estar acolhendo alguém que nenhuma afinidade tem com o ideário socialista (PSB, para quem não sabe, é Partido Socialista Brasileiro). De fato, o curriculum de Ciro Gomes jamais fez suspeitar que por ali se escondia um socialista.
Ciro começou sua carreira na antiga Arena, o partido do regime militar. Depois, foi para o PDS e, a seguir, sempre acompanhando Tasso Jereissati, seu padrinho na política, rompeu com o partido para apoiar Tancredo Neves. Esteve no PMDB e, por fim, no PSDB, como fundador.
Foi prefeito de Fortaleza, governador do Ceará e ministro da Fazenda de Itamar Franco. Um curriculum considerável, sobretudo para alguém com pouco mais de quarenta anos. Ninguém nega o talento de Ciro. Questiona-se, nas esquerdas, o sentido de sua candidatura.
Uma parcela - e aí incluem-se políticos como o senador Roberto Freire (PPS-PE) e o deputado Paulo Delgado (PT-MG) - o vê como um aliado estratégico, capaz de dividir as forças governistas e aglutinar aliados à esquerda -, condição que os candidatos esquerdistas não teriam. Ao contrário, estabeleceriam uma sucessão polarizada que acabaria por favorecer Fernando Henrique.
Outra parcela de esquerdistas - e aí incluem-se Lula e Brizola - concorda com a necessidade de selar alianças ao centro para dividir a base do governo. Mas não admite que isso se dê em torno de um nome alheio às esquerdas. Ciro, assim como Itamar Franco, poderia no máximo integrar uma chapa de consenso como candidato a vice-presidente. O cabeça de chapa teria que ser da esquerda - mais precisamente, Lula. Por fim, a parcela radical, que acha que a esquerda deve conversar apenas consigo mesma - e mesmo assim com cuidado.
Fernando Henrique, à distância, acompanha tudo com entusiasmo.

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