Não é apenas à esquerda que o sonho da candidatura única à presidência da República está ameaçado. Também à direita, os sinais são preocupantes. O deputado Delfim Neto (PPB-SP), por exemplo, tem estimulado o ex-prefeito Paulo Maluf a lançar-se candidato à presidência da República e não a governador de São Paulo.
A candidatura Ciro Gomes, pelo PSB, quebra a expectativa de sucessão polarizada entre esquerda (Lula) e direita (FHC). E estimula o lançamento de outras candidaturas represadas no campo conservador. As principais são as de José Sarney e Paulo Maluf.
O presidente Fernando Henrique fará o que puder para tentar desestimular essas candidaturas. Resta saber o que poderá efetivamente fazer. Já conversou anteriormente a esse respeito tanto com Sarney quanto com Maluf, sem esquecer Itamar Franco, outra ameaça potencial à unidade situacionista em torno da reeleição. Em princípio, todos se dispõem a não contribuir para a vitória de um nome à esquerda.
Mas cada qual quer sua contrapartida - e aí começam os problemas. Maluf quer ser governador de São Paulo e pede (no mínimo) a neutralidade do presidente naquele pleito. Impossível: Mário Covas, candidato à reeleição, exige o engajamento de Fernando Henrique. E não está só. A mesma exigência é feita pela cúpula do PSDB nacional, capitaneada pelo ministro Sérgio Motta. Como atender a situações excludentes? Como continuar neutro do alto do palanque de Covas?
Em Minas, o quadro se repete: atender a Itamar, que admite trocar a candidatura presidencial pelo governo do Estado, significa desatender ao governador Eduardo Azeredo, candidato à reeleição.
Sarney não está no centro de nenhum nó político-eleitoral. O nó é ele mesmo, estimulado por Orestes Quércia a lançar-se candidato à presidência, tendo por lastro razoável popularidade aferida por pesquisas de opinião. Ele já se articula internamente para que o partido aprove a tese de lançar candidato próprio à sucessão.
Se a tese vingar - não se sabe ainda a dimensão numérica dos peemedebistas que defendem a reeleição -, Sarney terá que disputar espaços com Itamar. Por enquanto, a vantagem é sua. Itamar, afinal, nem sequer se filiou a partido e continua sendo cortejado pela esquerda para que se engaje na sucessão pelo outro lado.
O fator Ciro Gomes parece ter rompido a polaridade que se imaginava definitiva no quadro sucessório, conferindo-lhe ampla margem de imprevisibilidade. Para Fernando Henrique, convinha a polarização. Dentro da simplificação que ela provoca, continuaria a ser, diante da opinião pública, o candidato do Plano Real.
Com a pulverização de candidaturas, o quadro se complica. Ciro Gomes, por exemplo, é ex-ministro do real. Paulo Maluf e José Sarney, políticos conservadores - um mais à direita e outro mais ao centro -, não se encaixam no perfil de adversários da estabilização e são adeptos do real. Para enfrentá-los, o presidente terá que sofisticar seu discurso. Não será tão simples.

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