Há momentos em que a filosofia acaciana - aquela que proclama o óbvio em tom solene - é arma de razoável eficácia para o exame dos problemas mais intrincados. Lula a elegeu como método investigativo padrão ao examinar a presente debandada de petistas ilustres.
‘‘Se as pessoas estão deixando o partido, é porque alguma coisa não está dando certo’’, analisou o líder maior do PT, ao falar sobre a saída da ex-prefeita Luiza Erundina, uma incômoda rival. E disse ainda: ‘‘É importante ter um partido que possa exigir de seu governante o cumprimento do que foi prometido em palanque’’.
Lula refere-se às queixas crônicas dos governantes petistas contra seus militantes, que inevitavelmente se transformam nos seus maiores adversários. Em muitos casos, tornam problemática a governabilidade. Victor Buaiz, governador do Espírito Santo, é o exemplo mais recente. Deixou o partido para tentar ver se consegue enfim governar o Estado. Cristovam Buarque, governador de Brasília, esteve diversas vezes na iminência desse gesto (a rigor, ainda está).
A aversão do partido ao poder só é comparável a seu apetite em disputá-lo. Uma contradição, claro - e é aí que está o problema. O PT vive a única contradição imperdoável a um partido político: não possui projeto de poder. Pior: suspeita de quem eventualmente o possua.
Bastou Lula dizer que é preciso selar alianças para governar - tese que Erundina, antes dele, proclamou alto e bom som - para ser colocado sob suspeita pela ala radical. O deputado Milton Temer (RJ), que perdeu a disputa pela presidência do partido para o moderado José Dirceu, acha uma heresia a busca de parcerias de centro-esquerda.
Negava-se a conceder a Lula o voto de confiança que ele pedia. Se não há confiança, claro, há suspeita. Não existe meio termo entre uma coisa e outra, assim como não há meia gravidez. Desde então, aprofundou-se o mal-estar no partido. Lula não quer ser, mais uma vez, o candidato competente (aquele que, segundo ele mesmo, compete, compete e jamais vence). Quer chegar ao poder - e governar. E isso o torna suspeito para uma considerável fatia de correligionários.
Lula cansou-se de ser o bicho-papão das elites. Quer estar engajado num projeto eleitoral alternativo, que, a partir de uma proposta consistente, sensibilize a maioria da sociedade brasileira. Sabe que o PT dos radicais - aquele que, segundo Milton Temer, ‘‘diz não’’ - não tem a menor chance. A sociedade cansou-se do discurso meramente iconoclasta. Quer o discurso propositivo, construtivo.
A debandada de petistas ilustres enfraquece a candidatura Lula e põe em debate a idéia de uma candidatura oposicionista alternativa. O PSB, partido sem maior expressão, pode ser o estuário dos oposicionistas cansados de apenas dizer não. Afinal, é uma legenda disponível.
Lula é ainda nome forte para a construção de um consenso oposicionista, mas perde substância a cada vez que algum personagem de peso deixa o partido. A oposição está em busca de nova logomarca, que a liberte de estigmas de pouco curso eleitoral, como a de radical e anacrônica, coladas à imagem petista. A idéia é trocar a bandeira vermelha pela onda rosa para deter o rolo compressor neoliberal.

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