O presidente Fernando Henrique tem razão quando se queixa da superficialidade do debate político brasileiro, bem aquém da complexidade dos desafios da conjuntura interna e externa.
A declaração do presidente do PT, José Dirceu, de que ‘‘os movimentos sociais não aceitarão diálogo com FHC porque ele já fez a opção de governar com a direita, para a direita e como a direita’’ confirma o diagnóstico presidencial, reiterado na entrevista a ‘‘Veja’’.
A declaração de Dirceu não significa rigorosamente nada. É um chavão eleitoral, que expressa pobreza de raciocínio e inapetência para o debate. Nada empurra mais o governo para a direita que a recusa de diálogo à esquerda. Sem respaldo político, não se governa. Não encontrando acolhida junto às chamadas forças progressistas, o presidente acaba refém do conservadorismo e do fisiologismo.
A obtusidade do discurso esquerdista neste momento põe em xeque a atualidade dos conceitos progressismo e conservadorismo. Na medida em que a esquerda, identificada como expressão do avanço e das transformações, resiste às mudanças, trai a própria identidade.
Já não é o progresso, mas o conservantismo. Luta para manter um status quo perverso, qual seja o de um Estado caro e ineficiente, construído ao tempo do regime autoritário, incapaz de universalizar benefícios. O presidente Fernando Henrique espanta-se com o teor de um recente cartaz da CUT, que dizia: ‘‘Reforma, só a agrária’’.
Ele acha que essa atitude é reacionária (portanto, de direita). Essa esquerda, segundo ele, ‘‘está garantindo as condições para a existência futura do neoliberalismo, porque o Estado (sem as reformas) vai quebrar e o que vai sobrar é o mercado’’.
O governador do Espírito Santo, Victor Buaiz, recém-saído do PT, sustenta esse conceito. O governador de Brasília, Cristovam Buarque, idem. A ala moderada do PT não o nega, mas não ousa afirmar nada, temerosa da patrulha dos radicais. Reformar o Estado não significa eliminá-lo. Preservá-lo, nos moldes atuais, em nome de interesses corporativistas e minoritários, sim. Qual deve ser a extensão e profundidade das reformas? Qual o Estado ideal?
A discussão dessas questões, que estão acima do varejo político e contribuem para lançar luzes para os dilemas contemporâneos, tem sido escamoteada pelos partidos de esquerda. Essa a acusação de Fernando Henrique. As declarações de José Dirceu o confirmam.
Ele está empenhado em pacificar as diversas correntes internas do PT, sobretudo os radicais, que combateram sua candidatura a presidente do partido. É em função dessa circunstância que produz frases agressivas e de escasso conteúdo político. Está imbuído de complicada missão: unir coisas distintas - radicais, moderados, sindicalistas, MST etc. - em torno da candidatura Lula.
Impossível ser profundo e reflexivo em tais circunstâncias.

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