A proximidade da campanha eleitoral acentua o discurso social-democrata de Fernando Henrique. Não se trata de mera estratégia eleitoral. O presidente busca ampliar alianças à esquerda e demonstra simpatia por opositores à la Roberto Freire (PPS-PE) e Tarso Genro (PT).
É como se estivesse preocupado não com as alianças eleitorais, mas com as de seu hipotético segundo mandato. Estaria já sugerindo mudanças de conteúdo e de parceria para o futuro. Incomoda-o o rótulo de neoliberal com que seu governo é classificado. E procura demonstrar a improcedência e superficialidade dessa conceituação.
Tudo isso está patente na extensa entrevista que deu a ‘‘Veja’’ desta semana. O presidente repele o neoliberalismo (‘‘Se se deixar o mercado solto, pobre país!’’), proclama-se adepto do Estado regulamentador (‘‘Temos que continuar a pensar no Estado como fator importante para resolver a questão da igualdade’’) e propõe a ‘‘radicalização democrática’’ como arma contra a globalização.
O presidente é, antes de tudo, um pragmático. Conhece a natureza de suas parcerias políticas, sabe que o ecletismo de sua base parlamentar o obriga a concessões nem sempre coerentes com seu discurso político, mas faz questão de demonstrar que nada é feito aleatoriamente. Há um objetivo e, em nome dele, justificam-se pecados menores, expressos em parcerias nem sempre louváveis.
O diagnóstico básico da crise contemporânea resume-se numa palavra: perplexidade. O mundo está em mutação. O presidente compara o impacto cultural da globalização ao do Renascimento, há meio milênio. Só que tudo é bem mais rápido, amplo e devastador. As ideologias clássicas envelheceram, os partidos perderam suas referências fundamentais.
Nesse contexto, diz ele, sobressai a função presidencial, cujo poder ‘‘é de geometria variável’’: ‘‘Se se põe na cadeira (presidencial) alguém incapaz de persuadir, seu poder será bem menor’’. Nesse sentido, o poder de Fernando Henrique é considerável; poucos têm seu talento persuasivo. Ele lamenta o anacronismo do pensamento acadêmico brasileiro. Esperava que se reciclasse e percebesse com maior rapidez a natureza e extensão das transformações em curso (‘‘Será que não vêem o que está acontecendo no mundo? Não vêem pelo menos o que estou querendo fazer?’’).
Há também críticas para o conjunto da esquerda brasileira, que, parada no tempo, ter-se-ia tornado matriz do pensamento imobilista e conservador. O presidente espanta-se com essa esquerda que não quer mudar, que se opõe a transformações (‘‘É patético, é um paradoxo! Esquerda sou eu; eles são neoliberais’’). E deixa claro que gostaria de agregá-la a seu projeto reformista. ‘‘Num país com o grau de desigualdade do Brasil, uma esquerda é necessária, desde que seja moderna, que faça avançar’’.
Na medida em que os acenos não obtêm resultado, o presidente tende a continuar refém da base fisiológica e liberal que tanto desconforto lhe causa. Sozinho, porém, não pode governar.

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