Ruy Fabiano
Bastidores sugestivos
Quando se condena genericamente o uso indevido da máquina administrativa do Estado, o que se tem em mente são exatamente práticas como a da lista de parlamentares do PPB, devedores do Banco do Brasil.
A quebra do sigilo bancário, crime administrativo, não foi acidental, nem obedeceu a uma necessidade operacional do Banco. Tratou-se de ação política de bastidores, cujo objetivo foi pressionar parlamentares indecisos quanto à emenda da reeleição.
O governo joga uma espécie de tudo ou nada nessa matéria. Não pode perder a votação, sob pena de inviabilizar o que lhe resta de mandato. Se a reeleição for rejeitada, o governo Fernando Henrique não apenas encerra o sonho de mais um período presidencial, como terá dificuldades de concluir o atual. Seu prestígio se reduzirá a tal ponto que os próprios contínuos do palácio farão corpo mole na hora de servir o cafezinho presidencial. É a lógica implacável do poder.
O Congresso, como é óbvio, não apenas sabe disso, como joga com essa circunstância. Ela encarece o cacife pessoal de cada parlamentar. Torna-o mais atrativo a favorece o toma-lá-dá-cá. Quando um aliado governista diz que é favorável à emenda, mas não para os atuais governantes, ou que está em duvida com certos aspectos da emenda, está, em geral, emitindo uma senha, para negociar vantagens.
O episódio da lista do Banco do Brasil constitui prática comum nesse tipo de política. O incomum, no caso, foi ter a lista vazado, expondo o governo a imenso desgaste junto à opinião pública. Não há casualidade nisso. O vazamento faz parte do jogo de queimações. A lista, diz-se, teria sido providenciada a pedido do secretário-geral da Presidência, Eduardo Jorge, e vazada no jogo das intrigas palacianas, onde ele disputa prestígio com o ministro da Articulação Política, Luís Carlos Santos. Ambos estão envolvidos até o pescoço no jogo de pressões e contrapressões sobre parlamentares, em favor da reeleição.
Banco do Brasil, Caixa Econômica, BNDES, as grandes estruturas do Estado, sempre estiveram historicamente a serviço do clientelismo político. É fácil entender porque convivem com dificuldades estruturais crônicas. O BNH, criado no início do regime militar para implantar uma política habitacional, funcionou, e bem, enquanto foi preservado desse jogo. No final do regime militar, porém, esteve a serviço da fracassada pré-candidatura presidencial de Mário Andreazza.
Não suportou o tranco e faliu no governo seguinte, de José Sarney. O Banco do Brasil, no início do atual governo, reduziu drasticamente seus quadros funcionais, em nome da competitividade e da própria solvência. Bastaria ter sido posto à margem da política. O episódio da lista do PPB é apenas um trailer de um filme cujo script está sendo escrito agora: a reeleição sem desincompatibilização.





