Ruy Fabiano
O esforço aglutinativo de Lula, José Dirceu e outras lideranças moderadas do PT não está sendo suficiente para conter o êxodo de personalidades do partido. Depois do governador Victor Buaiz, do Espírito Santo, é a vez da ex-prefeita de São Paulo, Luiza Erundina. O governador de Brasília, Cristovam Buarque, não saiu, mas também não chegou a entrar. É um petista de fachada e conveniência.
Erundina há muito era também um corpo estranho ao partido. A rigor, distanciou-se da militância já no início de seu mandato de prefeita de São Paulo, na década passada. Vivenciou ali o pesadelo destinado a todos os que se elegeram para cargos executivos do partido: ter os próprios correligionários como opositores.
A ex-prefeita de Fortaleza Maria Luiza Fontenele, primeiro quadro petista a governar uma capital, foi a primeira a passar pela experiência. Acabou protagonizando uma administração problemática que reduziu o prestígio do partido no estado. Erundina, no poder, conheceu a inviabilidade do projeto purista do PT, avesso a alianças e imobilizado por sólidas bitolas ideológicas.
Ao deixar a prefeitura, sustentou o discurso que hoje Lula e José Dirceu patrocinam: sem alianças, pode-se até chegar ao poder, mas não se governa. Fora da prefeitura, Erundina foi classificada de herege ao aceitar um cargo ministerial no governo Itamar Franco.
Tratava-se do governo pós-impeachment, que se propunha a selar uma aliança de centro-esquerda, muito parecida com a que hoje Lula sonha para sua candidatura. Erundina topou - e foi crucificada (inclusive por Lula).
Foi expulsa do partido e, somente quando deixou o governo, foi readmitida. Sua candidatura a prefeita de São Paulo, na eleição passada, foi sabotada pela militância do partido, que, mais uma vez, considerou absurda a idéia de alianças com políticos de centro.
Para os radicais do PT, tudo o que não é esquerda é direita. O centro não passa de um eufemismo ideológico. Erundina perdeu a eleição para Celso Pitta e não escondeu sua mágoa da militância petista (queixa que, com maior discrição, estende a Lula).
Sabia-se que seus dias no partido estavam contados. Quando surgiu a tese, sustentada por muita gente, dentro e fora do PT - gente como Ciro Gomes, Lula, Tarso Genro, Roberto Freire e Paulo Delgado -, de promover-se uma aliança eleitoral de centro-esquerda para enfrentar Fernando Henrique Cardoso, Erundina sentiu que ali estava sua saída (nos dois sentidos).
O PSB, de Miguel Arraes, pode ser o ponto de aglutinação dessa candidatura única oposicionista, em coligação, por exemplo, com o PT. Quem seria o candidato? A prevalecer o PT como núcleo, o nome inevitável seria Lula. Mas, aprofundando-se a cisão no partido, o candidato pode ser outro. Ciro Gomes, por exemplo, se não for cooptado por seu padrinho Tasso Jereissati. Tarso ou - por que não? - Erundina.
Ela com certeza joga em todas essas hipóteses - exceto, claro, na viabilidade do projeto xiita da ala radical do PT. Esse ela já experimentou - e não recomenda.





