Ruy Fabiano
Em nenhum Estado como em São Paulo o ecletismo da aliança política governista é tão problemático. A proximidade da campanha eleitoral aprofunda os conflitos entre tucanos e malufistas. O governador Mário Covas, candidato à reeleição, não se conforma com o tratamento generoso que Fernando Henrique dá a Paulo Maluf.
Maluf, por sua vez, continua a adotar comportamento crítico em relação ao governo federal. Não ataca o presidente, mas ataca sua política econômica e seu partido, o PSDB. Não mais se declarou candidato a presidente da República, mas também não negou essa hipótese. Faz suspense, procurando, com isso, manter sob tensão tanto o governador Covas quanto o presidente da República.
O PPB, enquanto isso, investe fundo na imagem pessoal de seu líder maior. A propaganda gratuita anual do partido no rádio e televisão trocou o formato convencional desses programas por diversas inserções publicitárias, de curta duração, centradas na imagem de Maluf. Essas mensagens buscam valorizar o político tocador de obras, gerador de empregos, dentro da mesma abordagem adotada com sucesso nas eleições municipais. As mensagens estão sendo difundidas em todo o país - e não apenas em São Paulo.
Maluf sabe que sua candidatura presidencial incomoda Fernando Henrique, e que sua candidatura a governador incomoda Mário Covas. Ambos, claro, fingem que isso não existe, mas ambos estão inteirados de pesquisas que mostram que o potencial eleitoral de Maluf precisa ser levado a sério. Não é por outro motivo que Fernando Henrique trata bem o ex-prefeito, não obstante as queixas de correligionários (a começar por Mário Covas).
Fernando Henrique não tem outra saída. Se romper com Maluf, terá o rompimento explorado politicamente, o que é perigoso. Maluf divide sua base parlamentar e pode provocar o racha com que sonha a oposição para evitar a reeleição. O ideal seria empurrá-lo para a sucessão estadual, mas aí Covas e tucanos estrilam.
Maluf tornou-se uma esfinge. Ninguém sabe ao certo se desistiu ou não da candidatura presidencial. Se depender, por exemplo, da opinião do deputado Delfim Neto, seu aliado, deve continuar no páreo. Delfim sustenta a tese de que, se houver uma candidatura no campo conservador - e Maluf é, entre elas, a de maior consistência -, a reeleição de Fernando Henrique não está de forma alguma assegurada.
Não é casual que a Comissão de Constituição e Justiça do Senado tenha reduzido para 40% o percentual de votos necessários para que a eleição presidencial se decida no primeiro turno.
Temem os governistas um segundo turno. É improvável que os plenários do Senado e da Câmara aprovem essa iniciativa, mas está claro que o governo teme a dissidência - e Paulo Maluf é o espectro mais aterrador. Menos por ele e mais pela complexidade das alianças em São Paulo, que imobilizam o talento de negociador de Fernando Henrique e o desgastam perante seus mais antigos e leais colaboradores - como, por exemplo, o governador Mário Covas.





