O ex-ministro Ciro Gomes, reciclado por dois anos de estudos em Harvard, tornou-se inesperado fator de transtorno da base política do governo, ameaçando candidatar-se à presidência da República pelo PSB de Miguel Arraes, dentro de ampla aliança de oposição.
Ciro, em seu retorno, flagrou-se social-democrata desde criancinha, preocupado com a preservação do ‘‘Estado socialmente necessário’’ e determinado a fulminar os neoliberais.
O estreito convívio com o professor Mangabeira Unger, que consegue conciliar coisas tão distintas como ser brizolista - é o ideólogo do PDT, autor de seu programa - e lecionar em Harvard, tornou-o crítico contumaz do governo Fernando Henrique. Ataca a banda conservadora da aliança governista - PFL mais especificamente - e estimula a ação dos tucanos insatisfeitos.
Ciro, que começou sua carreira política na extinta Arena e ganhou projeção regional e nacional pelas mãos do governador Tasso Jereissati, um neoliberal confesso, tem exibido pragmatismo insuspeitado. Chegou com um discurso de tons esquerdistas cujo objetivo é aglutinar apoios a apartir da oposição e abocanhar dissidentes na praia governista. Ciro percebeu que, se ninguém formular um discurso alternativo, a sucessão estará mais uma vez polarizada entre Fernando Henrique e Lula - e mais uma vez vencerá, com folga, Fernando Henrique.
Há considerável parcela de oposicionistas que não se entusiasmam com a candidatura Lula, pois a sabem derrotada de antemão. Políticos como o senador Roberto Freire (PPS-PE) e o deputado Paulo Delgado (PT-MG) acham que Lula já deu o que tinha que dar como candidato à presidência. Seria mais útil como candidato a deputado, levando consigo considerável bancada oposicionista para a Câmara, principal trincheira de resistência às reformas neoliberais. Estima-se que, candidato a deputado, Lula teria mais de um milhão de votos.
Delgado acha que o único meio de derrotar Fernando Henrique é por meio de um candidato de sua própria base política. Isso geraria dissidência e, seguramente, um segundo turno. Prova de que o raciocínio não é furado é o empenho do PSDB em resgatar Ciro, oferecendo-lhe alguma contrapartida. Aí entra em cena o pragmatismo do ex-ministro. Já conversou com seu ex-padrinho Tasso Jereissati, candidato à reeleição ao governo do Ceará.
Cogitou-se, no alto comando dos tucanos, de oferecer a Ciro o governo do Ceará, o que o colocaria em rota de colisão com Tasso. Isso, pelo visto, não acontecerá. Tasso garante que Ciro jamais ficará contra ele. Há ainda a alternativa do Senado, menos atrativa a Ciro.
O que se diz é que o estardalhaço que Ciro está provocando não busca resultados imediatos. As chances de emplacar a presidência em 1998 são remotíssimas. O que ele visa é sua candidatura presidencial para 2002, na sucessão de Fernando Henrique. Quer fixar a imagem de crítico consequente do governo, sem dissociar-se do grande trunfo eleitoral que é o Plano Real.

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