Ruy Fabiano
A entrevista coletiva de anteontem de Fernando Henrique deu o tom que pautará a campanha da reeleição. A idéia é vender otimismo de desenvolvimentista - e não apenas estabilidade monetária. O governo se antecipa à retórica oposicionista, que explora a conta social do ajuste, com seu vasto séquito de excluídos e desempregados.
Há numerosos indicadores econômicos favoráveis - e a estabilidade da moeda é apenas um deles. O Brasil, por exemplo, lidera o ranking dos países emergentes que mais vendem títulos de renda fixa para investidores internacionais.
A tradução disso é credibilidade. Ninguém compra um título desses, de longo prazo (alguns de até 30 anos), sem confiar no país. Há até três anos, isso era inimaginável, no mercado internacional de títulos. Mais: estudo do Banco Mundial inclui o Brasil no grupo dos cinco países que devem dobrar sua participação no PIB mundial após o ano 2000. Os outros países são China, Índia, Rússia e Indonésia.
Tudo isso favorece o discurso governista na campanha - e dificulta o oposicionista. Não que faltem mazelas a ser exploradas. Lado a lado das performances econômicas, há problemas consideráveis para os quais o governo não acenou com soluções: déficit público, desequilíbrio da balança comercial e a monumental dívida social, para só citar os mais evidentes. A estratégia de Fernando Henrique não é esconder esses problemas, mas mostrar que existe um plano para superá-los (ainda que não haja).
O presidente desafiará sempre a oposição a mostrar seu projeto alternativo de governo, buscando pontuar ao máximo as discussões. Quanto mais pontuais as questões, mais difícil para o candidato oposicionista - sobretudo se estiver, como é previsível, representando uma aliança eclética - definir o que fará.
Imagine-se, por exemplo, Lula tendo que vocalizar uma aliança de centro-esquerda, que atenda simultaneamente aos radicais do PT e aos socialdemocratas de outros partidos. Se admitir a redução do tamanho do Estado e as privatizações, incidirá em pecado mortal para os aliados da esquerda. Se não o fizer, provocará a ira dos aliados de centro. Para ele, será melhor insistir no discurso adjetivo. Fernando Henrique esgrimirá com números e indicadores econômicos em abundância.
Ao tempo do regime militar, essa tática era sempre posta em jogo nos períodos eleitorais. Desafiava-se a oposição, que reunia também uma frente eclética (mais eclética que a de hoje), a mostrar seu projeto de governo, sabendo-se que não o faria. Quanto mais genéricas e adjetivas as críticas, mais fácil manter unidas facções distintas.
Ao tempo da ditadura, bastava reclamar o Estado de Direito democrático. Hoje, já não basta. A estabilidade da moeda é fetiche poderoso. É preciso ir além da crítica adjetiva e apresentar soluções.
Ao citar a dentadura como nova heroína do Plano Real, o presidente acionou a estratégia que, daqui para a frente, utilizará com constância cada vez maior. A idéia é mostrar o povo como o grande beneficiário da estabilidade, sorrindo de orelha a orelha, ainda que com o recurso postiço de uma dentadura.





