Ruy Fabiano
A reeleição de José Dirceu para a presidência do PT confirmou a divisão entre moderados e radicais. Num colégio eleitoral de 550 votos, Dirceu ganhou por margem estreitíssima: 28 votos. A vitória definiu a amplitude da participação petista na sucessão presidencial.
Prevaleceu aí também o ponto de vista moderado: o das alianças amplas com todos os setores que se opõem ao projeto neoliberal e ao governo Fernando Henrique. Essa abertura, inscrita no documento Carta do Rio de janeiro, autoriza o PT a selar acordos não apenas à esquerda, com Brizola e Arraes, mas também ao centro, com políticos como Itamar Franco, Ciro Gomes e José Sarney. Ponto para Lula.
De posse desse aval, que o candidato radical derrotado, deputado Milton Temer (RJ), se recusava a lhe dar, Lula sai em campo em busca de consolidar a tese da candidatura única das oposições. Não é tarefa fácil. É óbvio que qualquer oposicionista meramente sensato sustenta essa tese. O problema está na definição do nome. Sarney acha que é ele; Itamar se julga melhor; Ciro Gomes nem se fala.
Por incrível que pareça, o consenso maior hoje está à esquerda. Brizola já não discute sua própria inviabilidade - e apóia Lula. Idem Arraes. Há resistências residuais na própria ala moderada do PT - embora não em função de restrições ao nome de Lula. O deputado Paulo Delgado (MG), por exemplo, acha que o único meio de desestabilizar a candidatura de Fernando Henrique é provocando um racha no campo conservador. Para que isso aconteça, é necessário que o partido apóie candidato fora de seus quadros.
Delgado cita dois nomes, sem receio de ser chamado de herege: Itamar e Sarney, cuja grande vantagem está no fato de já terem exercido a presidência e terem governado em ampla coalizão. Admite também Ciro Gomes, mas com algumas restrições. Roberto Freire, que defendia a opção Tarso Genro, se inclina agora por Ciro. Tarso já havia dito que, se Lula não retirasse sua candidatura durante a convenção, significaria que não pretende mais fazê-lo. Lula não retirou.
Tarso só admitia ser candidato se iniciasse desde já sua campanha. Não é nome nacionalmente conhecido e diz que precisa de tempo para viabilizar-se. Lula diz que essa discussão precisa acontecer mais na frente, a partir de dezembro. É uma forma oblíqua de fritar o adversário. A convenção fortaleceu Lula que, a menos que algo inesperado sobrevenha, é mais uma vez o candidato do PT à presidência.
Seu desafio, daqui para a frente, é duplo: atenuar a frustração dos radicais - evitando ao máximo o racha - e aglutinar apoios externos. Enquanto esse processo se desdobra, o candidato Fernando Henrique celebra satisfeito (e com um sorriso cheio de dentes) a ciranda das dentaduras, transformadas em heroínas do Plano Real.





