Ruy Fabiano
Os aliados da reeleição estão, neste momento, empenhados em missão delicada: o desmonte de candidaturas presidenciais alternativas. A hipótese de nomes oriundos da base parlamentar do governo aventurarem-se a desafiá-lo é o grande risco que o presidente quer evitar. Dividiria votos e forçaria a realização de um segundo turno.
Nomes não faltam: José Sarney (PMDB-AP), Itamar Franco (sem partido), Ciro Gomes (PSDB-CE). Nenhum deles lançou-se formalmente ou demonstrou inflexibilidade. Ao contrário, diretamente ou por meio de aliados, deixam claro que estão dispostos a conversar. No jargão político, conversar e negociar expressam a mesma realidade.
Itamar, não faz muito tempo, conversou diretamente com Fernando Henrique a esse respeito. Segundo se soube, manifestou interesse em contar com o apoio do presidente para uma eventual candidatura ao governo de Minas. Esse apoio seria a moeda de troca para que desistisse de concorrer à presidência. Fernando Henrique achou interessante, mas não foi explícito quanto à sua aquiescência.
Se o fosse, provocaria uma crise no PSDB mineiro, que trabalha pela reeleição do governador Eduardo Azeredo. Fernando Henrique já admitiu que se sentiria incomodado em duelar com Itamar. Foi seu ministro da Fazenda e deve a ele, de certa forma, a projeção política que o levou a sucedê-lo na presidência. De quebra, não lhe conviria discutir publicamente a paternidade do Plano Real, que, a rigor, não é obra de nenhum dos dois. Foi concebido por economistas e chancelado por ambos, até porque não lhes restava outra saída. Mas essa é outra história.
Voltemos ao desmonte. A situação de Sarney difere um pouco. O ex-presidente, estimulado por Orestes Quércia (o mesmo que lhe sabotou um projeto de candidatura presidencial na eleição passada) e baseado em pesquisas de opinião que o situam razoavelmente bem, passou a considerar um eventual retorno ao Planalto pela via direta.
Sarney conclui ano que vem seu mandato de senador pelo Amapá. Não pode correr riscos - e isso favorece a negociação. Fernando Henrique tem a oferecer-lhe, em troca de uma incerta candidatura presidencial, apoio para que retorne ao Senado, bem como à reeleição de sua filha Roseana, governadora do Maranhão. Não é pouco e é improvável que Sarney despreze a oferta, muito embora estique ao máximo o prazo da resposta e mantenha os aliados em suspense. Faz parte do seu show.
Por fim, Ciro Gomes. É o mais problemático dos aliados. Ciro, segundo dizem seus amigos, toparia trocar a candidatura presidencial pela eleição a governador do Ceará. Só que isso atropelaria o projeto de Tasso Jereissati, candidato à reeleição.
Tasso é o introdutor de Ciro na política cearense e nacional, mas não escapou à síndrome do padrinho, que consiste em romper com o apadrinhado tão logo este triunfa. O PSDB ficou pequeno para os dois.
Ciro namora o PSB e, sobretudo, a hipótese de uma aliança de centro-esquerda, sugerida pelo senador Roberto Freire (PPS-PE), para lançá-lo à presidência. Pode não ganhar, mas firma seu nome para a sucessão de Fernando Henrique Cardoso em 2002.





