O presidente Fernando Henrique Cardoso, quem diria, é hoje o mais ardoroso defensor da candidatura presidencial de Lula. A hipótese de uma sucessão despolarizada o preocupa, pois acabará forçando um segundo turno e alianças que dividirão o campo político conservador.
Do lado oposicionista, trabalha-se febrilmente nessa direção. O senador Roberto Freire (PPS-PE) e o deputado Paulo Delgado (PT-MG) estão em busca de um nome alternativo, que una as esquerdas e atraia alianças de centro.
Paulo Delgado acha que não há outra chance de vitória oposicionista senão via importação de um nome de centro, confiável e aberto a alianças. Esse nome poderia ser Ciro Gomes, José Sarney ou Itamar Franco. Roberto Freire acredita que a vitória pode ser obtida com um nome da própria esquerda, desde que formule discurso renovado, que incorpore as conquistas do real. E cita Tarso Genro, do PT.
De todos os nomes, Ciro e Tarso são os mais citados pelos articuladores dessa candidatura de consenso. Ciro, porém, é acusado de falar demais e criar arestas desnecessárias, sobretudo junto ao empresariado. ‘‘Alguém precisa pedir ao Ciro para ele ficar calado’’, diz Delgado. Tarso Genro enfrenta a divisão petista, que viverá sua prova de força este fim de semana, quando, em encontro nacional, no Rio, o partido elegerá seu novo presidente.
O raciocínio dessas lideranças é consistente. Se a eleição polarizar, reproduz-se o quadro da campanha passada - e inevitavelmente seu resultado. De um lado, estará o Plano Real, personificado por Fernando Henrique; de outro, sua negação. Por aí, não dá. O único meio de enfraquecer a candidatura oficial é provocando divisão entre suas forças, deixando de ser o real o eixo da campanha.
A eleição passaria a centrar-se na discussão do futuro: desemprego, distribuição de renda, retomada do desenvolvimento etc. Delgado acha que Sarney, melhor que os outros, provocaria esse racha, mas lamenta que a esquerda faça tantas restrições ao seu nome.
‘‘Trata-se de mero preconceito. As posições que ele tem sustentado são bem próximas das nossas, além do fato de já ter tido experiência na presidência, onde conviveu com ampla frente democrática, administrando alianças e acordos concebidos por Tancredo Neves’’, analisa Delgado.
Sarney não está indiferente a essas especulações. Sua candidatura não está formalizada, mas está posta ao exame do PMDB. Internamente, tem o apoio do presidente do partido, Paes de Andrade, e de um de seus caciques, Orestes Quércia. Precisa, porém, de gesto mais audaz: romper com partes de sua base política conservadora (em grande parte no PFL), alinhada até a medula na causa da reeleição. A candidatura Sarney depende hoje mais de Sarney que do PMDB.

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