O discurso de três dias atrás do senador José Sarney (PMDB-AP), da tribuna do Senado, expressou tudo quanto se diz na intimidade do governo Fernando Henrique a respeito da reação argentina - mais precisamente do presidente Carlos Menen - à pretensão brasileira de ocupar assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.
Pelo fato de Sarney ser ex-presidente e responsável pelo início das negociações em torno do Mercosul, sua palavra não ficou confinada aos anais do Senado. Repercutiu e chegou aos ouvidos do presidente argentino. O que se diz no Itamaraty é que Sarney, despojado de responsabilidades diplomáticas, deu o tom claro da indignação brasileira. O volume de interesses argentinos, hoje, em relação ao Brasil não autoriza bravatas como a de Menen.
As reações às palavras do presidente argentino aconteceram também entre seus compatriotas. O empresariado argentino vê no comércio com o Brasil uma espécie de safena salvadora. Entupir esse canal equivale a condená-los ao enfarte econômico. O governo brasileiro tem sido extremamente cauteloso desde o início do problema. Cauteloso até demais, segundo Sarney. No Congresso, cobrou-se do Itamaraty tom mais veemente na repulsa à posição argentina.
O deputado Paulo Delgado, por exemplo, acha que a linguagem que os argentinos entendem - e usam - é a dos números. Basta ao Brasil brandir os números. No ano passado, o saldo das transações comerciais da Argentina com o Brasil foi de US$ 1,5 bilhão (números que para o Brasil representam déficit). O saldo da Argentina com os Estados Unidos, por exemplo, é inferior a esse em US$ 500 milhões. Há produtos brasileiros (como os sapatos) que entram na Argentina pagando imposto, enquanto os mesmos produtos argentinos aqui nada pagam.
Todo esse paternalismo brasileiro tem como objetivo estreitar a parceria e fazer do Mercosul um bloco respeitável no mapa geopolítico do planeta. Menen, com suas declarações, pôs isso em risco. O discurso de Sarney peitou o presidente argentino, responsabilizando-o pelo que resultar desse imbroglio.
Sarney não é político de bravatas ou emocionalismos, antes pelo contrário. Por isso, suas declarações críticas, que se estendem ao governo norte-americano - apontado como responsável pela manobra divisionista -, obtiveram repercussão externa.
O que se diz agora é que as declarações de Menen teriam obedecido menos a conveniências de política externa e mais a interesses internos. O desgaste popular do presidente argentino o teria levado a criar suas Malvinas particulares, ressuscitando a velha rivalidade com os brasileiros. Essa é uma leitura que tem sido feita pelos analistas da política argentina. Nessa hipótese, o gesto foi bem mais inconsequente do que à primeira vista aparentou. A reunião de hoje, em Assunção, dos países do Grupo do Rio, deverá concentrar-se nesse contencioso.

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