Ao tempo em que a capital federal era no Rio, Câmara e Senado funcionavam em endereços diferentes, com estruturas administrativas bem mais enxutas que no presente. A Câmara funcionava no Palácio Tiradentes e o Senado no Palácio Monroe (demolido nos anos 70 pela cobiça imobiliária, que pretendia ali erigir um edifício-garagem).
Não havia apartamentos funcionais, nem gabinetes parlamentares. Cada qual cuidava de sua estrutura pessoal de trabalho e morava de acordo com suas possibilidades. Inexistia também o vaivém da ponte aérea. A maioria acabava residindo no Rio, viajando às bases com regularidade menor, exceto, claro, nos períodos eleitorais.
Com a transferência da capital para Brasília, teve início uma série de gastos do Estado com a manutenção de servidores e homens públicos (apartamentos funcionais, franquias postal e telefônica, auxilio-moradia etc.). Cristalizaram-se também alguns hábitos de duvidosa legitimidade. Um deles é o de reduzir a semana parlamentar a três dias de trabalho: terça, quarta e quinta.
Tudo, no início, se justificava dentro do argumento de que a nova capital não oferecia os recursos de infra-estrutura da velha capital. Cabia ao Estado suprir as deficiências enquanto a nova capital não se consolidava. A nova capital consolidou-se já há alguns anos, mas os hábitos que gerou não foram revistos - ou o foram apenas em parte. As distorções expõem Brasília às críticas do resto do país, muito embora a cidade e seus habitantes nada tenham a ver com esses desmandos, que a visitam regularmente pela ponte aérea.
As denúncias de uso indevido das verbas de gabinete põem os parlamentares em posição delicadíssima. Uma varredura rigorosa mostraria que um número mais que expressivo serve-se de expedientes semelhantes aos revelados pelo deputado Chicão Brígido. Seria uma guerra de extermínio, que exporia a instituição de maneira insuportável.
A saída, que está sendo debatida nervosamente pela presidência da Câmara, parece ser uma só: rever as regras do jogo. Como diz o deputado Carlos Apolinário (PMDB-SP), o erro está no sistema adotado pela Câmara e pelo Senado, que coloca nas mãos do parlamentar as verbas destinadas ao auxílio-moradia e ao pagamento dos funcionários, contratados por conta do titular do mandato. A partir daí, há espaço para numerosos expedientes, alguns indecorosos, outros dissimulados - nenhum sustentável do ponto de vista ético.
Diz-se que, ao adotar esse sistema, o Congresso buscou modernizar e enxugar sua estrutura funcional, seguindo modelo adotado pelo Congresso norte-americano. Contratados pelos parlamentares, os funcionários não têm estabilidade, nem vínculo com a instituição.
É óbvio, porém, que os mecanismos de controle daqui não funcionam como os de lá, nos Estados Unidos. E ainda: qual a cota justa de funcionários que o Estado deve pagar para assessorar parlamentares? É tarefa do Estado fazê-lo? Em que medida? São temas longamente evitados, mas que se tornam agora imperativos.

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