Ruy Fabiano
Nélson Rodrigues dizia que profeta é aquele que enxerga o óbvio. O desafio da oposição brasileira, neste momento, não é propriamente enxergá-lo, mas viabilizá-lo. Ninguém, entre os oposicionistas - incluindo-se aí os radicais do PT -, duvida que a unidade é a única chance para derrotar a candidatura Fernando Henrique ano que vem.
É o que Nélson chamaria de óbvio, ululante. Nem por isso, há sinais dela no horizonte. Há uma comissão interpartidária que pretende unificar as ações eleitorais de PT, PDT, PSB e PC do B em torno de candidatura e programa comuns. O candidato viável é Lula, já que o PT é o maior dos partidos de oposição.
Até aí, não há tantas discussões. Elas começam (e não terminam) quando se fala no tal programa comum, que contenha propostas alternativas. Nem mesmo o PT dispõe de consenso interno quanto ao que quer. Seus moderados querem alianças - e quanto mais amplas, melhor. Seus radicais, no entanto, não querem. Aliás, se dependesse deles, nem teria sido formada essa comissão interpartidária.
Os radicais do PT não aceitam conviver nem com os moderados do partido, quanto mais, por exemplo, com Brizola, Ciro Gomes ou Itamar. O único ponto programático em comum, entre os oposições, neste momento, é a luta contra o neoliberalismo, mais teórica que prática.
Não há, entre as correntes, visão conceitual articulada a respeito da questão. É o ex-ministro Ciro Gomes, que ainda está no PSDB, mas deverá deixá-lo a tempo de se candidatar a alguma coisa ano que vem pela oposição, quem constata, pesaroso: Não há avanço algum (entre as oposições), tanto programaticamente quanto na metodologia de compreensão dos problemas. Por isso mesmo, não crê na hipótese de frente única de centro-esquerda contra Fernando Henrique.
As observações de Ciro têm procedência. Por falta de articulação, não há consistência doutrinária nas críticas ao governo. A oposição joga no varejo, procurando extrair das crises localizadas - caso dos precatórios, das manifestações dos sem-terra e dos policiais e das dificuldades conjunturais de um modo geral - dividendos de popularidade. Mas o ganho é escasso e inconsistente. Não se traduz em apoio da sociedade a projeto alternativo de poder.
A idéia de que a política de globalização, nos termos em que a pratica o governo Fernando Henrique, obedece a uma espécie de determinismo histórico - e é o preço mínimo a pagar pela estabilidade da moeda - continua prevalecendo. A comissão interpartidária quer aproveitar os ventos favoráveis da chamada onda rosa (as derrotas neoliberais na Inglaterra, França e México) para reverter esse processo. Já dispõe de um esboço, que será submetido a diversas leituras críticas.
A tarefa, pelas dificuldades envolvidas, reclama mais que um profeta. Possivelmente, um messias.





