Ruy Fabiano
Os recentes revezes externos do neoliberalismo, na Inglaterra, França e México, animam a esquerda brasileira quanto ao futuro. Esse otimismo, expresso nas palestras feitas no Fórum São Paulo, que reuniu militantes esquerdistas brasileiros e estrangeiros, em Porto Alegre, semana passada, encontra um único obstáculo: a própria esquerda.
O PT, maior dos partidos de esquerda, vive tensões internas consideráveis, que dificultam a ocupação dos espaços políticos propiciados pelo desgaste do governo. O presidente Fernando Henrique vive momento de desgaste, decorrente dos efeitos colaterais das políticas de ajuste econômico. Desemprego e crise de crescimento resumem o drama de seu governo, cobrado como omisso na área social.
A esquerda, no entanto, não se apresenta aos olhos da opinião pública - e as pesquisas evidenciam isso - como alternativa de poder. A popularidade do presidente caiu, seu governo desgastou-se, mas ainda são vistos, pela maioria, como a melhor alternativa de poder para garantir as conquistas do Plano Real.
Lula tem dito que há imenso espaço político a ser explorado pela esquerda na próxima campanha. A idéia de que a reeleição de Fernando Henrique são favas contadas, segundo ele, é enorme equívoco. Tudo isso é verdade, desde que a esquerda se entenda, se articule e (como dizem os micreiros) formate um discurso.
A onda rosa, que atingiu França, Inglaterra e México, não é ignorada, nem desprezada pelo goveno, muito embora a esquerda cabocla o tranquilize com suas lutas domésticas. Agosto é mês-chave para definir o futuro do PT. Nos dias 29 e 31, o partido elege seu novo presidente, em encontro nacional, no Rio. Duelam moderados e radicais.
Os moderados querem reeleger José Dirceu; os radicais querem eleger o deputado Milton Temer (RJ). Lula, que tem buscado ser o elo entre essas correntes, o traço de união do partido, terá que descer do muro. E o fará em benefício de Dirceu. A diferença entre os dois discursos é considerável. Temer quer o PT em estado puro, que, segundo ele, é o PT que diz não. Não é o PT com que sonha Lula, que, por dizer não tantas vezes, já perdeu duas sucessões presidenciais e uma estadual.
O deputado José Genoíno (SP), da corrente moderada, acha que o PT precisa de um projeto político, econômico e social, de modo a ser visto pela sociedade como alternativa concreta de poder. Um discurso meramente contestatório já não sensibiliza ninguém. A maioria prefere garantir os ganhos do que aí está a dar um salto no escuro.
O desafio do PT não é pequeno: precisa não apenas convencer a maioria do eleitorado de que o socialismo não sucumbiu nas ruínas do Muro de Berlim, mas também mostrar que é a expressão nacional da onda rosa que já conquistou alguns países do Primeiro Mundo.
Por enquanto, exibe apenas os espinhos da rosa. Teme-se que, na hipótese de vitória dos radicais, esse sonho vá por água abaixo. E, em caso de derrota, rache o partido ao meio. A definição está próxima.





