O grande duelo político que o presidente Fernando Henrique terá que administrar, até o fim do processo sucessório - e a opinião é de um personagem influente da área econômica -, é dentro de seu governo. A ascensão de Gustavo Franco à presidência do Banco Central representa, entre outras coisas, o triunfo do padrão técnico sobre o político no processo administrativo. Triunfo parcial, claro.
O episódio emblemático foi o comportamento inflexível do governo federal no caso da falência de Alagoas, que culminou com o pedido de licença do governador Divaldo Suruagy e a explosiva manifestação de PMs em greve. O presidente resistiu ao lobby parlamentar e fez prevalecer o veredicto da equipe econômica, que condicionava o auxílio financeiro ao estado à adoção de drásticas medidas de ajuste.
Como não houve as medidas de ajuste, não houve o auxílio - e Alagoas explodiu. Firmou-se então uma espécie de jurisprudência: auxílio econômico só mediante determinados condicionamentos técnico-administrativos. Essas medidas de ajuste, como é obvio, são impopulares. Os governadores não desejam tomá-las, sobretudo quando já vislumbram na paisagem política os palanques eleitorais.
Em graus variáveis, a nenhum estado brasileiro é exatamente estranho o que se passou em Alagoas. Todos estão pendurados em dívidas e carentes de auxílio federal. Só que, além de o caixa ser insuficiente para atender a todos, esse auxílio põe em risco a gestão do Plano Real, pedra-de-toque do governo Fernando Henrique.
O presidente já sinalizou, com a ascensão de Gustavo Franco (criticado na famosa entrevista de Sérgio Motta a Veja e saco de pancadas habitual da base parlamentar governista), que não pretende submeter a gestão do Plano - pelo menos até determinado nível - às circunstâncias político-eleitorais. Os governandores, no entanto - sobretudo os aliados -, não querem virar Divaldo Suruagy.
Quase todos são candidatos à reeleição e precisam também exibir obras de fachada e manter os salários do funcionalismo em dia. Sem auxílio federal, a maioria terá problemas. Começa então o jogo de pressões e contrapressões. Os governadores, de um lado, pedindo dinheiro e acenando com os efeitos eleitorais da contrariedade do eleitorado; de outro, os técnicos da área econômica mostrando os riscos contábeis da generosidade. O limite de Fernando Henrique - de seu governo, de sua candidatura - é a saúde do Plano Real.
A equipe econômica está disposta a resistir, mas não sabe ainda avaliar a capacidade de resistência pessoal do presidente. Se Fernando Henrique não fosse candidato a nada, mesmo assim seria difícil resistir ao obsessivo lobby de governadores e parlamentares. Sendo candidato - e, portanto, dependente direto do apoio dos que o pressionam -, a resistência torna-se imprevisível.
A quebra de braço já está em curso e dela não quis participar Gustavo Loyola, que já vinha exercendo papel secundário no processo. A bola está (continua) com Gustavo Franco. O ministro Pedro Malan, como diz o ministro Sérgio Motta, entrou mudo e continua calado.

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