A disputa pela presidência do PT entre José Dirceu, atual presidente, e o deputado Milton Temer (RJ) está longe de ser um conflito personalista. Eles vocalizam um duelo ideológico cujo desfecho definirá o futuro da esquerda brasileira. E o desfecho tem data marcada: a eleição está prevista para dia 30 deste mês.
Dirceu, candidato dos moderados, sustenta a tese de que o partido, para chegar ao poder, precisa estabelecer alianças conservadoras. Temer acha que não vale a pena chegar ao poder em tais condições. Fernando Henrique Cardoso seria o exemplo mais eloquente de alguém que sela alianças inconvenientes e acaba refém delas.
Lula pensa como Dirceu. Acha que, sem alguma dose de pragmatismo, o partido continuará eternamente de estilingue na mão, atirando contra a vidraça do poder. Lula quer ser poder e está convencido de que só o será quando o partido ampliar seu leque de alianças e incorporar apoios de outras facções políticas à sua direita.
Ele acha que o PT precisa conversar com todos que possam somar contra o governo Fernando Henrique. Não exclui desse rol personagens como Itamar Franco e Sarney. Brizola, antigo adversário, tornou-se amigos íntimo. Se Lula pensasse assim em 1989, quando perdeu o segundo turno para Collor, a esquerda poderia ter vencido aquela eleição.
É pelo menos o que sustenta Brizola, que diz que, naquela oportunidade, qualquer dos candidatos de oposição que enfrentasse Collor no segundo turno (ele próprio, Mário Covas ou Ulysses Guimarães) venceria. Só Lula, pela polarização ideológica que estabeleceria, corria o risco de perder. E perdeu exatamente pelo sectarismo do partido. Parte da classe média acabou optando por Collor em legítima defesa (expressão na época cunhada por Delfim Netto).
O certo é que Lula parece ter aprendido a lição. Tornou-se adversário do sectarismo - e, por isso mesmo, está sendo desafiado pela primeira vez dentro do partido. Milton Temer diz que o partido (pelo menos a porção que votará nele, Temer) não chancelará a política de alianças de Lula. Temer quer o PT ‘‘dizendo não’’. Lula quer o PT dizendo sim, com discurso construtivo, que passe à sociedade a idéia de que há proposta alternativa consistente ao projeto neoliberal do governo.
‘‘Há imenso espaço político a ser explorado’’, repete Lula. A política do governo, segundo ele, transmite insegurança a amplos setores da classe média. A globalização desemprega, empobrece, reduz consumo. Não basta, porém, atacá-la com adjetivos e vaias. Ou tentar transformar Fernando Henrique num personagem reacionário e truculento, que ele não é - e, além, de não ser, sabe se defender e argumentar.
Se prevalecer a lógica da polarização, que o discurso xiita inevitavelmente traz, a classe média, fiel de balança nas eleições, opta por Fernando Henrique, em legítima defesa. Essa tem sido a pregação interna de Lula, que ainda não sensibilizou os radicais.

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