Ruy Fabiano
De um general de quatro estrelas, na ativa, com três passagens em comandos estratégicos e salário líquido de R$ 3.186, registro o depoimento abaixo, a respeito da crise do Estado brasileiro, exacerbada com a recente rebelião das polícias militares.
A transcrição corresponde à síntese de seu desabafo, que, conforme ele (que, por motivos óbvios, optou pelo anonimato), representa o pensamento hoje dominante em sua categoria. Aborda aspectos importantes da crise brasileira, por ângulos nem sempre valorizados pelos políticos. Eis o seu relato, com a literalidade possível:
O Estado brasileiro é um circo salarial. Os problemas começam no topo e vão até a base. Nada justifica, dentro do Estado, que qualquer outro funcionário ganhe mais que o presidente da República. É ele a autoridade máxima - e essa superioridade também precisa se expressar no salário. No entanto, os ministros do Supremo Tribunal Federal, por exemplo, ganham bem mais que ele, sem falar nos marajás - municipais, federais e estaduais -, que resistem a tudo.
Um general de quatro estrelas, com 41 anos de atividade e diversos cursos de aperfeiçoamento e passagens por comandos importantes - é o meu caso - recebe salário bruto de R$ 4.800. É pouco mais do que o Senado paga a um jornalista em início de carreira (salário bruto de 3.736,68, segundo edital de concurso exibido pelo general). Não tenha dúvida de que esse é o nó da crise do Estado.
E há mais: a disparidade dos salários. A diferença entre o mais alto e o mais baixo salário não pode ultrapassar a dez vezes. A crise da Polícia Militar tem essa raiz. Um comandante da PM, patente de coronel, ganha em média R$ 8 mil - o dobro de um general de quatro estrelas, sem ter, nem de longe, o seu adestramento. Um soldado PM ganha entre salário mínimo e R$ 500. Quando isso acontece, a tropa perde o respeito pelo comando, quebra-se a cadeia hierárquica. Tem-se então o quadro presente, de caos e baderna.
É claro que o Exército teme o efeito multiplicador disso. Mas, entre nós, ao contrário do que aconteceu na PM, a tropa sabe que o comando compartilha de suas aflições. O menor salário está em torno de R$ 500. Está abaixo da margem de dez vezes. PT e CUT (não sei se é o PT que manda na CUT ou se é a CUT que manda no PT) apenas se serviram dessa situação, que favorece a ação dos agitadores. Estava claro que isso aconteceria, mas ninguém fez nada para prevenir.
O circo salarial está garantido pela Constituição, que não permite que se reduzam salários. Não vejo no presidente Fernando Henrique vocação autoritária para uma saída a Fujimori. Nós, das Forças Armadas, cremos que a democracia é, apesar de tudo, o que há de melhor, o que não significa que não produza turbulências.
A PM chegou ao fim. Nós, do Exército, sempre fomos contra polícia militar. São coisas diferentes. O Walter Pires (ex-ministro do Exército do governo Figueiredo, já falecido) agravou o problema. Quando o Brizola foi eleito, em 1982, decidiu tirar o Exército de suas funções civis, entre elas os comandos das PMs e da Polícia Federal. O resultado aí está. Toda a política de segurança precisa ser repensada, mas com salários de miséria não dá nem para começar.





