De um general de quatro estrelas, na ativa, com três passagens em comandos estratégicos e salário líquido de R$ 3.186, registro o depoimento abaixo, a respeito da crise do Estado brasileiro, exacerbada com a recente rebelião das polícias militares.
A transcrição corresponde à síntese de seu desabafo, que, conforme ele (que, por motivos óbvios, optou pelo anonimato), representa o pensamento hoje dominante em sua categoria. Aborda aspectos importantes da crise brasileira, por ângulos nem sempre valorizados pelos políticos. Eis o seu relato, com a literalidade possível:
‘‘O Estado brasileiro é um circo salarial. Os problemas começam no topo e vão até a base. Nada justifica, dentro do Estado, que qualquer outro funcionário ganhe mais que o presidente da República. É ele a autoridade máxima - e essa superioridade também precisa se expressar no salário. No entanto, os ministros do Supremo Tribunal Federal, por exemplo, ganham bem mais que ele, sem falar nos marajás - municipais, federais e estaduais -, que resistem a tudo’’.
‘‘Um general de quatro estrelas, com 41 anos de atividade e diversos cursos de aperfeiçoamento e passagens por comandos importantes - é o meu caso - recebe salário bruto de R$ 4.800. É pouco mais do que o Senado paga a um jornalista em início de carreira (salário bruto de 3.736,68, segundo edital de concurso exibido pelo general). Não tenha dúvida de que esse é o nó da crise do Estado’’.
‘‘E há mais: a disparidade dos salários. A diferença entre o mais alto e o mais baixo salário não pode ultrapassar a dez vezes. A crise da Polícia Militar tem essa raiz. Um comandante da PM, patente de coronel, ganha em média R$ 8 mil - o dobro de um general de quatro estrelas, sem ter, nem de longe, o seu adestramento. Um soldado PM ganha entre salário mínimo e R$ 500. Quando isso acontece, a tropa perde o respeito pelo comando, quebra-se a cadeia hierárquica. Tem-se então o quadro presente, de caos e baderna’’.
‘‘É claro que o Exército teme o efeito multiplicador disso. Mas, entre nós, ao contrário do que aconteceu na PM, a tropa sabe que o comando compartilha de suas aflições. O menor salário está em torno de R$ 500. Está abaixo da margem de dez vezes. PT e CUT (não sei se é o PT que manda na CUT ou se é a CUT que manda no PT) apenas se serviram dessa situação, que favorece a ação dos agitadores. Estava claro que isso aconteceria, mas ninguém fez nada para prevenir’’.
‘‘O circo salarial está garantido pela Constituição, que não permite que se reduzam salários. Não vejo no presidente Fernando Henrique vocação autoritária para uma saída a Fujimori. Nós, das Forças Armadas, cremos que a democracia é, apesar de tudo, o que há de melhor, o que não significa que não produza turbulências’’.
‘‘A PM chegou ao fim. Nós, do Exército, sempre fomos contra polícia militar. São coisas diferentes. O Walter Pires (ex-ministro do Exército do governo Figueiredo, já falecido) agravou o problema. Quando o Brizola foi eleito, em 1982, decidiu tirar o Exército de suas funções civis, entre elas os comandos das PMs e da Polícia Federal. O resultado aí está. Toda a política de segurança precisa ser repensada, mas com salários de miséria não dá nem para começar.

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