O senador José Sarney (PMDB-AP) tem dito que a sucessão de Fernando Henrique será inteiramente diferente da que o elegeu. Haverá segundo turno e disputa acirrada. Não apenas ele joga nessa certeza: também os formuladores do governo. Admitem que haverá segundo turno, com todos os transtornos e contratempos que lhe são inerentes.
A eleição anterior de Fernando Henrique deu-se dentro da euforia do Plano Real. A população saboreava o fim da hiperinflação e não sentia ainda as efeitos colaterais do ajuste econômico. Em tal circunstância, qualquer candidato que expressasse a nova ordem econômica sairia vitorioso, fosse Fernando Henrique ou (como inicialmente desejava Itamar Franco) Antonio Britto. O Plano Real era a atração.
A eleição do próximo ano joga com fatores diferentes. O Plano Real continua sendo a vedete do espetáculo, mas há outras atrações - e uma das maiores são os efeitos colaterais do ajuste econômico, mais precisamente a distribuição desigual dos sacrifícios dentro da sociedade. Fernando Henrique está tendo, com a sequência de rebeliões de policiais país afora, pequena amostra da enorme insatisfação social decorrente da política econômica.
Pode-se acusar, como o faz o governo, PT e CUT de estarem por trás dos movimentos, manipulando a insatisfação dos manifestantes. Isso, porém, não torna o problema menos grave ou menos verdadeiro. O gênio agitador daquelas organizações não é capaz de forjar revoltas. Elas pré-existem e, no caso, estão apenas sendo exteriorizadas em ambiente de provocação. A desordem salarial, a concentração de renda e o desemprego - três fatores que resumem a crise social brasileira - não têm solução de curto prazo. Estarão presentes na hora da sucessão.
A ascensão de Gustavo Franco à presidência do Banco Central confirma a opção do governo pelo arrocho monetário, que manterá a política de juros altos, que, por sua vez, mantém o país em conjuntura de semi-recessão. Não há sinais de que, até o início da campanha eleitoral, esse quadro se modifique substancialmente.
É claro que o governo dispõe de meios de maquiar o processo, via ações de publicidade e marketing e com medidas cosméticas de cunho populista, que produzem sensação de euforia em alguns setores da população (financiamentos para casas populares, afrouxamento provisório do crédito, inauguração em série de obras e coisas do gênero). A oposição, porém, não estará, como na sucessão passada, sem assunto.
O calcanhar-de-aquiles é a dívida social - e não faltam cobradores, desde já em ação para dificultar os planos continuístas do governo. Fernando Henrique é ainda, de longe, o mais forte candidato centro-conservador à sua própria sucessão. Mas, como já está submetido a um processo de desgaste em sua imagem - e não se sabe até onde esse desgaste poderá levá-lo -, já se buscam alternativas para a eventualidade de uma surpresa. Daí porque Sarney e Paulo Maluf mantêm-se por perto, sem negar ou confirmar coisíssima alguma, antes pelo contrário.

mockup