A desmilitarização das polícias militares, já antevista como desdobramento da crise de comando em que se envolveram, equivale, na prática, à sua extinção. A alta hierarquia das Forças armadas não vê outra saída para o impasse criado, que põe em risco a própria estrutura de segurança pública do País.
Rigidez hierárquica é palavra-chave na lógica militar. Sem ela, tem-se o caos. Pode-se dizer que o fim das PMs já está decidido, o que não significa que irá ocorrer sumariamente. O falecido Ulysses Guimarães costumava dizer, referindo-se ao regime autoritário, que mais difícil que matar o monstro é remover-lhe os escombros.
O dito se aplica às PMs. Pode-se dizer que, com a quebra de comando, elas suicidaram-se. Foi, aliás, o general Alberto Cardoso, ministro-chefe da Casa Militar da Presidência da República, quem afirmou que a PM ‘‘feriu-se de morte’’. Resta, porém, remover-lhe o cadáver. E aí não é tão simples.
O Estado não pode prescindir de uma instituição que desempenhe o papel de força restauradora da ordem pública. O exército não é adestrado para tal missão. Quando é chamado é porque a violação da ordem pública atingiu o paroxismo. É preciso haver uma força que aja em primeira instância. Essa força tem sido a PM, cuja confiabilidade foi sepultada com a quebra de hierarquia.
Fala-se em criação de uma guarda nacional - no caso, recriação, pois, no passado, já existiu tal corporação. Resta saber em que termos funcionará. O general Alberto Cardoso acha que pode ser organizada como uma quarta força armada, ao lado de Exército, Marinha e Aeronáutica, destinada, porém, à defesa interna, sem conotação ideológica.
É difícil imaginar como funcionaria aí a desmilitarização - e em que medida essa desideologização aconteceria. Como no passado, a guarda nacional tenderia a tornar-se milícia a serviço dos interesses do governo estadual, podendo entrar em rota de colisão com o governo central e desafiá-lo em circunstâncias de crise política.
Foi para prevenir tal situação, ocorrida em diversos Estados na conjuntura pré-1964, que a hierarquia do Exército passou a controlar as PMs após o golpe militar. A partir daí, as PMs adquiriram a feição esquizofrênica que mantêm até hoje - metade polícia, metade brigada paramilitar. O adestramento policial e o militar são diferentes e, de certa forma, antagônicos: um promove a defesa da ordem pública e dos direitos do cidadão; o outro, a defesa territorial, em ações de guerra e extermínio. Daí o modo como a PM lida com o problema das invasões de terra País afora, exterminando os camponeses invasores, como se fossem inimigos externos. É a polícia empregando métodos de ação militar.
O que está em pauta não é apenas a questão da PM. Examina-se a reforma da política de segurança pública. A PM é o eixo da mudança. Está em estudo proposta do governo de São Paulo que unifica as polícias civil e militar e suas respectivas funções de investigação e policiamento ostensivo. Nada será feito, no entanto - e essa é uma recomendação dos militares -, no calor da crise. A recomendação é esperar os ânimos serenarem para dar início às punições e às mudanças.

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