Ruy Fabiano
O trunfo de Fernando Henrique é que, apesar de todos os pesares e das aparências em contrário, ninguém, em sua base política, quer brigar de fato. Há mais barulho que disposição efetiva de rompimento. São muitos os interesses envolvidos na aliança.
PFL e PSDB sabem perfeitamente que, mantendo a aliança de 1994, só o imponderável poderá derrotá-los. A perspectiva de continuidade no poder, que ambos os partidos alimentam, vai bem além de dois governos - este e o próximo.
O PFL sabe que, queira ou não Sérgio Motta, o sonho de duas décadas ininterruptas no poder só tem consistência com sua parceria. Estão, pois, PSDB e PFL, pelo menos a curto prazo, condenados ao convívio. Os atritos - inevitáveis, neste momento, em virtude da proximidade da campanha eleitoral - estão na esfera estadual, onde os dois partidos, na maioria dos casos, ocupam trincheiras opostas, disputando o comando das ações.
No plano federal, no entanto, não têm por que brigar. O osso é suficientemente grande para ambos. O desafio do presidente consiste em lembrá-los disso a cada instante e administrar ciúmes e excessos. A entrevista de Sérgio Motta, por exemplo, foi um excesso - e excesso e Motta, em política, são conceitos que passaram a se confundir.
Ao PSDB, mais que ao PFL, convém evitar a iniciativa dos confrontos. Eles tendem a unir os irmãos bastardos da família parlamentar governista - PPB, PMDB e PTB - em torno da liderança do PFL. O sentimento de exclusão que Motta passou ao PFL é compartilhado pelos demais integrantes da base. A solidariedade é inevitável. Tudo isso fere a autoridade do presidente da República e o expõe ao desgaste público.
O senador José Sarney (PMDB-AP), por exemplo, vê aí a brecha necessária para que sua candidatura presidencial, ainda que remota e improvável, passe a ter alguma circulação. O ex-presidente Itamar Franco, idem. Nenhum dos dois está disposto a arriscar coisa alguma, mas em política não se desperdiça nenhum lance que resulte no aumento, ainda que mínimo, do cacife pessoal. Blefar é do jogo.
A sorte (mais uma vez) do presidente é não dispor de oposição. Do outro lado, a bagunça é equivalente - e não se dispõe nem de caneta, nem do Diario Oficial. Se do outro lado houvesse alguma nitidez programática, alguma unidade de ação e um líder como o próprio Brizola ou Miguel Arraes com duas décadas a menos de idade, o quadro poderia se complicar.
O grande contratempo dessas brigas é quanto aos cronograma das reformas. O governo projeta terminá-las o quanto antes, tendo em vista as necessidades do calendário eleitoral. O líder do PFL na Câmara, Inocêncio Oliveira, já avisou, porém, que haverá dificuldades.
Não tanto pelo PFL, que se satisfez com o pronunciamento do presidente criticando Motta, mas pelos demais partidos, sobretudo o PMDB, cuja lealdade manifesta-se no varejo e precisa ser posta à prova a cada votação. As confusões entre PSDB e PFL aumentaram o pedágio.





