Ruy Fabiano
Há componentes políticos gravíssimos na crise das polícias militares, que se desdobra em diversos estados da federação, com ameaça de alianças esdrúxulas com a CUT e o Movimento dos Sem-Terra.
A gravidade maior está em algo simples: os que protestam possuem armas. Mais que isso, possuem adestramento para usá-las e já demonstram que não hesitarão em fazê-lo. A aliança com movimentos populares, que possuem a cultura e o marketing do protesto, pode desencadear ações e reações imprevisíveis. Esse o grade temor.
As Forças Armadas acompanham preocupadas o desdobramento dessas ações, com o maior cuidado em não lhes atribuir a dimensão que efetivamente têm. Nada de declarações ou advertências públicas, não obstante estar em jogo a própria hierarquia do sistema militar.
O exército, convocado na hora do sufoco - quer para enfrentar a PM, quer para substituí-la na greve -, não está adestrado para as chamadas guerras de rua. O exército de Israel, por exemplo, pela natureza da conjuntura que enfrenta há décadas, adestrou-se para esses conflitos, que exigem armamentos e logística próprios.
A morte de um soldado do Exército no Recife, quinta-feira, ao tentar reprimir um assalto a banco (a PM de lá continua em greve), demonstra a inaptidão daquela corporação para ações policiais urbanas.
O Exército brasileiro, na eventualidade de um conflito como o que se desencadeou e Maceió, há mais de uma semana, quando PMs e policiais civis se uniram para tomar o Palácio e ensaiaram confronto armado com os militares, teme o pior. Isto é, um banho de sangue.
Os armamentos de que teria que se valer para enfrentar os rebeldes são pesados - Exército é força adestrada para o extermínio, em guerra externa - e teriam que ser acionados. A bizarra aliança entre PMs rebelados, CUT e MST é claramente oportunista. Só que junta oportunismo com pólvora, com consequências potencialmente perigosíssimas.
A escassez de declarações formais dos chefes militares tem o sentido de evitar a combustão política. Em termos práticos, o cenário é assustador: os PMs rebelados armaram a fogueira, representada pela quebra da hierarquia, e seus aliados de ocasião (MST e CUT) trouxeram a gasolina. Falta apenas algum alucinado acender um fósforo. O papel da hierarquia do Exército, neste momento, tem sido o de bombeiro.
Junto a esses personagens, ninguém discorda da sentença do senador Esperidião Amin (PPB-SC), segundo o qual essas rebeliões constituem o fato político mais assustador desde a redemocratização. Elas sinalizam para a necessidade, já admitida entre os chefes militares, de incluir a segurança pública no cardápio das reformas em curso - com a urgência e precedência que o tema exige.
A crise parlamentar na base governista do governo ofuscou, de certa forma, a gravidade da insurreição da PM. Acabou atendendo involuntariamente a um objetivo estratégico dos que tentam esvaziar o movimento: quanto menos mídia, melhor.





