Ruy Fabiano
Trunfo fundamental
As dificuldades políticas do presidente Fernando Henrique no Congresso têm uma contrapartida importante: a confiança popular no governo. Os números da pesquisa do Ibope são expressivos. Nada menos que 80% dos entrevistados estão entre satisfeitos e muito satisfeitos.
Apenas 20% não estão. É um índice altíssimo de aprovação, que mostra que o presidente tem sabido manter e até expandir a confiança conquistada desde o advento do Plano Real, apesar de todos os sufocos por que passa a economia, com aumento da inadimplência, desemprego alto e crédito ainda arrochado.
A estabilidade da moeda ainda é o patrimônio mais valorizado pela população, sobretudo a imensa parcela mais desabonada, que ficou à margem da ciranda financeira nos longos anos de hiperinflação. O poder de compra do brasileiro pobre aumentou e é daí que parece advir hoje parte fundamental do apoio expresso na pesquisa, encomendada pela Confederação Nacional da Indústria.
É possível que, a se manter essa disparidade - de um lado, dificuldades cada vez maiores no Congresso; de outro, consolidação de apoio popular -, o governo acabe adotando proposta que inicialmente lhe foi apresentada como cilada política: transferir ao eleitor, via plebiscito, a decisão em torno da reeleição. O governo não deseja essa hipótese pelos transtornos que pode ocasionar, mas, se não puder garantir maioria no Congresso à aprovação da emenda, quem sabe chegue a essa solução extrema.
Foi essa a primeira contraproposta à reeleição, feita pelo PT. A seguir, surgiu a idéia de referendo. A diferença é que o referendo dá-se após a aprovação da emenda no Congresso, para confirmá-la ou negá-la, o que significa enfrentar duas batalhas: a primeira, junto aos parlamentares; a segunda, junto ao público. O plebiscito, ao menos, concentra os esforços numa única ação, junto ao eleitor.
Aí, pelo menos, Fernando Henrique sabe que ainda tem prestígio, apesar de todos os sufocos do processo de estabilização que está implementando. Neste momento, o governo vê o Congresso envolvido novamente em processo de acusações e suspeitas, detonado a partir de duas denúncias: uma no Senado (hoje objeto de CPI), em torno de irregularidades na emissão de títulos públicos; outra na Câmara, contra o líder do PTB, Pedrinho Abrão, acusado pelo ministro Gustavo Krause de cobrar propina de empreiteira.
Essas denúncias expõem o comportamento fisiológico de parcela ponderável da instituição. E é exatamente com esse fisiologismo que o governo pretende garantir a maioria que precisa. Como, porém, fazê-lo sob a luz dos holofotes da mídia? Não sendo por essa via, que outra adotar? São perguntas ainda sem resposta. O dado tranquilizador do presidente é a preservação de seu prestígio popular. Ao menos sabe que não está só. Já é um bocado de coisa.





