Não há dúvida de que a precipitação do processo sucessório (federal e estadual), imposta pela aprovação da reeleição, está na raiz dos recentes conflitos entre PSDB e PFL. Era, porém um risco inevitável. Se o presidente aprovasse a emenda no início do governo, sua base se diluiria sem que qualquer outra reforma fosse votada.
Se deixasse para depois, poderia não dar tempo. Eleição coloca em conflito vaidades e ambições. Nessa hora, desconhecem-se amizades e lealdades. Entra em cena uma espécie de salve-se-quem-puder. É a guerra da sobrevivência, travada com liguagem e códigos próprios.
Nem todos os decifram, mas quem é do ramo raramente tem dúvida. Sabe quando pode e quando não pode acreditar no que vê e ouve. Sabe também quando é hora de falar e quando é hora de ouvir. Frequentemente, como dizia Maquiavel - e em política isso é dogma -, as palavras servem mais para ocultar que para expressar o pensamento.
Há exceções, é claro - e Sérgio Motta é uma delas. Diz o que pensa. Pior: pensa o que diz. Não é ainda do ramo, embora nutra grande interesse pela atividade. A interpretação dada a sua entrevista - e essa é uma das causas da irritação do PFL - é de que cumpriu ordens. Estaria combinado, junto ao alto comando do PSDB, que ele soltaria umas farpas contra PFL, PMDB e PPB, lembrando que eles estão no poder, mas não são o poder. O PSDB, sim, seria a próprio poder, a sustentação permanente da dinastia Fernando Henrique, que Motta prevê que durará umas duas décadas e mudará o perfil do país.
O problema das críticas que fez na entrevista é que exagerou na dose. Não cutucou os parceiros: esmurrou-os. Sutileza, digamos assim, não é o seu forte. Ninguém no PFL acredita que Sérgio Motta falou por conta própria, sem estar conectado a algum propósito pragmático, acertado com o comando do partido. Eis aí o foco da crise.
O ministro tem vocalizado mais as demandas do PSDB que os interesses estratégicos do presidente. É claro que a crise enfraquece a autoridade do presidente - e, por tabela, sua candidatura. E em política há o efeito gangorra: sempre que alguém desce, alguém sobe.
Na medida em que o prestígio da candidatura Fernando Henrique é arranhado, o de alguém é fortalecido. Sarney joga nessa hipótese e mantém os bigodes de molho. Sérgio Motta involuntariamente acionou esse mecanismo, ao vestir a camisa do PSDB.
O partido, sobretudo a seção paulista, já está em pé de guerra contra seus prováveis adversários do ano que vem: PPB, PFL e PMDB. Daí sua agressividade. Há equivalências em diversos estados.
No Rio, o governador Marcello Alencar (PSDB) briga com o ex-prefeito César Maia (PFL) pela sucessão. Em Minas, o PMDB quer filiar Itamar Franco para lançá-lo contra o governador Eduardo Azeredo (PSDB). No Amazonas, o governador Amazonino Mendes (PFL) está na alça de mira do secretário-geral do PSDB, deputado Arthur Virgílio, seu possível concorrente nas eleições do ano que vem.
No Paraná, nas Alagoas, em Mato Grosso etc - o quadro se reproduz ad nauseam.

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