Ruy Fabiano
Há numerosas evidências resultantes da já célebre entrevista de Sérgio Motta a Veja. Nenhuma delas é nova, mas é sempre interessante revê-las. A primeira é que os grandes adversários do governo Fernando Henrique são exatamente os seus aliados.
O ministro Sérgio Motta imagina que é exceção a essa regra e, frequentemente, acaba sendo o mais problemático de todos. Pensa em voz alta. Pior: faz isso diante de microfones, câmeras e gravadores. Em política, isso é simplesmente mortal.
Motta sente-se tão íntimo do presidente que dá a impressão de que, às vezes, imagina que ele próprio é o presidente - e Fernando Henrique o ministro. Há regras clássicas em política que, sempre que desprezadas, resultam em dores de cabeça, quando não em desastres.
Uma delas é: não se nomeia quem não se pode demitir. Fernando Henrique incidiu nela ao nomear um amigo do peito, que não consegue sequer enquadrar, quanto mais demitir. Ninguém tem dúvida de que, fosse outro o ministro citado nas fitas que, há dois meses, denunciavam compra de votos na Câmara, e estaria demitido, em nome (ao menos) da superação do episódio. Só que o ministro era Sérgio Motta, o que obrigou o governo a fingir que nada acontecera.
Na entrevista de Veja, Motta desqualifica - ou moral ou tecnicamente ou de ambas as maneiras - metade do governo Fernando Henrique. O que fazer? A lógica do processo seria: demitir o boquirroto (no caso, Motta) ou os desqualificados - ou todos. Nada disso, em princípio, será feito. Muito ao contrário, o presidente pediu a todos que fiquem onde estão e que relevem as palavras de Motta.
Parece um pai pedindo compreensão para as estripulias do filho rebelde (o que é, no mínimo, ridículo). Sabe-se que tudo o que o ministro Motta disse, se não é rigorosamente verdadeiro, está muito próximo disso. Pode ter havido uma ou outra injustiça, mas, no geral, é aquilo mesmo. A base parlamentar do governo é uma mixórdia.
Foi articulada à base de interesses - e interesses clientelísticos. Sabe-se que há gente séria no PFL - e basta citar, entre outros, o vice-presidente Marco Maciel, o ministro do Meio Ambiente, Gustavo Krause, e o senador Josaphat Marinho (BA) -, mas a própria natureza do sistema partidário brasileiro, desprovido do instituto da fidelidade, convida ao fisiologismo e à desordem política.
O presidente, ao tempo da capanha, sempre que indagado a respeito da aliança que estava selando - e que conflitava com os ideais social-democratas que enunciava em seus discursos -, dizia que não havia outra maneira pacífica de avançar, senão incorporando aquelas forças políticas, indentificadas como a vanguarda do atraso pelo ex-ministro Fernando Lyra. Após a vitória, incorporou-se à aliança governista o PMDB, confirmando a predominância do fisiologismo.
O governo não foi montado tendo em vista uma plataforma comum de metas, mas sim a necessidade de obter três quintos dos votos do Congresso. A inspiração, pois, é contábil - e o resultado é o que Motta pensou em voz alta.





