Ruy Fabiano
Cassação em pauta
É mais fácil cassar o deputado Pedrinho Abrão, líder do PTB na Câmara, acusado pelo ministro Gutavo Krause de pedir propina a uma empreiteira, que submeter novamente o Congresso a um doloroso strip-tease como o protagonizado há três anos na CPI do Orçamento.
Em nome dessa lógica elementar, lideranças influentes na Câmara e no Senado inclinam-se por oferecer a cabeça do deputado goiano numa bandeja, em nome da normalização da agenda política da instituição. É secundário saber se há mais gente envolvida ou a verdadeira extensão do delito. Importa mudar de assunto o quanto antes.
A cassação de Pedrinho Abrão, que o PTB já decidiu afastar do cargo de líder, tornou-se a solução mais simples e eficaz. Preserva a imagem da instituição, que estará mostrando que não é conivente com os erros de seus integrantes, e restabelece a normalidade. Pedrinho Abrão, se efetivamente culpado, está longe de ser o único no âmbito da instituição a cultivar tais práticas. Uma CPI provaria isso com relativa facilidade, preservando inclusive a imagem da maioria íntegra.
Não é essa, porém, a intenção. O governo tem pressa em votar a reeleição e retomar o processo de reformas. Sabe-se como começa uma CPI, mas não se sabe como termina - é a advertência. Também ao tempo da CPI do Orçamento, os objetivos daquela investigação ficaram distantes da conclusão. Foram igualmente servidas algumas cabeças coroadas e preservadas outras, que até hoje estão aí, ocupando funções de relevo.
Não há vontade política da maioria parlamentar de submeter a instituição a novo processo depurativo. A denúncia de Krause pegou a todos no contrapé. Ele não a negociou com ninguém, nem com o presidente da República: formulou-a simplesmente, deixando a instituição e o governo sem muita alternativa senão a de retomar o discurso da indignação, embora fora de tom e sem a mais remota ênfase.
Krause está sendo acusado por alguns parlamentares, que não ousam mostrar a cara de oportunista. Com a denúncia, tornou-se, por algum tempo, indemissível do ministério. Seu cargo estaria na alça de mira do presidente, reivindicado pelo PFL baiano de Antonio Carlos e Luís Eduardo Magalhães, figuras de grande influência junto a Fernando Henrique. De fato, sua demissão torna-se problemática neste momento, dada a circunstância da denúncia.
Parece, porém, inverossímil que essa tenha sido a motivação do ministro. O perfil de Krause não é exatamente o de um maquiavélico. Além disso, já deu mostras, em outra oportunidade, de razoável desprendimento de cargos. No governo Itamar, renunciou ao principal cargo do primeiro escalão, o de ministro da Fazenda, por divergir de pontos de vista do presidente em relação a algumas questões econômicas. Se fosse maquiavélico, contornaria as divergências, fingindo recuar, já que o presidente não entendia de economia. Foi, aliás, exatamente isso que Fernando Henrique fez, quando assumiu a Fazenda no mesmo governo. O conceito de Krause é de político sério.





