Freio de arrumação

Não há dúvida de que a denúncia de corrupção contra o líder do PTB na Câmara, Pedrinho Abrão, representa um freio de arrumação na voracidade fisiológica que se estruturava em torno da emenda da reeleição. O presidente Fernando Henrique, diante disso, teria motivos para festejar. É possível, porém, que não seja bem assim.
Embora tenha assumido nos palanques da campanha eleitoral compromissos com a elevação das práticas políticas, criticando, sempre que é provocado, o fisiologismo e o clientelismo, não há como negar que tem se servido desse procedimento para garantir vitórias importantes no Congresso.
O presidente, em conversas informais, sustenta lógica bem pragmática: se a mão-de-obra parlamentar de que dispõe é esta que está aí, não tem alternativas senão utilizá-la dentro das regras vigentes. Implementando, porém, as reformas, estará modificando o perfil anacrônico do Estado e, dentro disso, contribuindo para regenerar as práticas políticas. Traduzindo: estaria usando a mão-de-obra fisiológica para reduzir a margem de fisiologismo do processo político. Visto por esse ângulo, as duas denúncias ora em investigação no Congresso - a CPI dos Títulos Públicos no Senado e a acusação de achaque orçamentário do líder do PTB na Câmara - trariam mais problemas que soluções ao governo.
Que outro caminho há neste momento, fora do fisiologismo, para que o governo garanta a maioria de que precisa para aprovar a reeleição? Não existe fidelidade partidária, nem reeleição configura fundamento doutrinário. Pelo menos nas atuais circunstâncias, está sendo examinada como casuísmo, algo que surgiu não como um clamor da sociedade, mas como demanda pessoal do presidente da República. Como então enquadrar os aliados, sobretudo os ecléticos aliados desse governo que vão da direita à esquerda, passando pelo subsolo e sobreloja, sem forjar um denominador político-ideológico coerente?
Há de tudo na base política do governo, inclusive gente respeitável. Só que, para aprovar emendas à Constituição, todos os votos são indispensáveis, até os indecorosos. O presidente Fernando Henrique aprovou as duas investigações, a do Senado e a da Câmara. Nem poderia agir de outro modo. Tem compromissos com sua imagem de político sem prontuário, que não pode vacilar diante de uma denúncia pública.
Não quer dizer que achou interessante que seu ministro do Meio Ambiente, Gustavo Krause, criasse o fato consumado da denúncia contra o líder do PTB na Câmara, ou que o Senado, instigado por denúncias públicas na imprensa, instalasse uma CPI problemática.
O presidente conta com o recesso de fim de ano para que as tensões se diluam e as duas crises se esgotem no âmbito das respectivas casas legislativas. A tradição parlamentar anterior ao ‘impeachment’ favorecia essa expectativa. Hoje, não se sabe.

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