O Ministério da doença

Apesar das aparências, nem tudo é verba em matéria de saúde pública. É pelo menos o que garante o médico e deputado José Aristodemo Pinotti (PMDB-SP), adversário do Sistema Único de Saúde, cuja falência proclama sem qualquer hesitação, onde quer que esteja.
Pinotti diz que o erro básico do atual modelo e dos que o precederam está em algo simples: investe-se na doença, não na saúde. ‘‘O que temos é o ministério da doença, isto é, ações sistemáticas voltadas para a correção de problemas que, com medidas relativamente simples de educação e prevenção, poderiam ser evitados, com economia de vidas humanas e de muitos milhões de reais’’.
Pinotti, ginecologista, há anos realiza importante trabalho na área social no Hopital da Mulher, em São Paulo. Já foi secretário de Saúde no governo Quércia, ocasião em que testou sua teoria segundo a qual a prevenção, via proselitismo educativo - o verbo antes da verba -, é o ovo de colombo da saúde pública. É ele quem conta:
‘‘Morrem por ano no Brasil cerca de sete mil mulheres vítimas de câncer de colo uterino. É uma doença sexualmente transmissível, dolorosíssima e mortal, que pode ser evitada a partir de alguns cuidados simples, que dependem apenas de informação e curada quando detectada em seu início. É simples diagnosticar o vírus causador da doença e tratá-lo antes que modifique o código genético da célula. Até que isso aconteça, decorrem dez anos. Basta que periodicamente a mulher faça um teste simples e barato chamado Papanicolau. Detectado o vírus, cura-se a paciente com pomada e cauterizações’’.
Apesar dessa simplicidade terapêutica, morrem sete mil mulheres anualmente no Brasil dessa doença por absoluta ignorância - e esse é apenas um caso entre muitos outros.
Pinotti defende ações do Estado no sentido de mobilizar a sociedade para mutirões pela saúde. Utilizar a mídia para veicular mensagens educativas, promover feiras anuais de saúde, transformado-as, a exemplo do que se fez com as vacinações infantis, em verdadeiras festas cívicas. Não adianta criar impostos e tentar remendar um modelo já esgarçado, como o fez Adib Jatene. ‘‘É como tentar enxugar o chão com a torneira aberta. É preciso fechar a torneira. Nossa cultura médica é medicamentosa, não preventiva. O Ministério da Doença, cuja matéria-prima é a ignorância, será sempre menos eficaz e muito mais oneroso que o Ministério da Sáude’’, diz ele.
Ainda no campo de sua especialidade, a mulher, Pinotti dá outro exemplo do que considera ‘‘assassinato em massa’’, perpetrado não por falta de verbas, mas de visão do interesse público. O Brasil criou há alguns anos - e a Organização Mundial de Saúde adotou como modelo -, o Programa de Atenção Integral à Saúde da Mulher. O programa, no entanto, acabou desativado nos poucos Estados em que foi adotado. O motivo: não há viabilidade de sobrevivência desse programa em um sistema de saúde centralizado e caótico como o SUS.

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