Ruy Fabiano
Camisa-de-força
O adiamento do leilão da Companhia Vale do Rio Doce é uma pequena demonstração da camisa-de-força em que a emenda da reeleição introduziu o governo. Para o mercado, foi um sinal de hesitação; para os políticos, um sinal de disposição para negociar.
Desde que se formou a frente ampla em defesa da Vale, capitaneada por políticos adversários da reeleição - Lula, Brizola, Itamar e Sarney, entre outros -, Fernando Henrique percebeu o risco a que está exposto. Não pode dar à oposição instrumentos que facilitem sua aglutinação. A defesa da Vale, em nome do nacionalismo e do interesse nacional, gerou a primeira frente antigovernamental.
Daí a torná-la estuário das forças contrariadas pelo governo ou pólo de aglutinação de projetos políticos antagônicos é um passo. Na verdade, o governo tornou-se refém da reeleição. Não pode perdê-la, sob o risco de liquidar-se politicamente no meio do mandato. E aí está a ironia: o presidente luta por mais um mandato, por achar que quatro anos são insuficientes para realizar sua obra.
Corre o risco de, não conseguindo novo mandato, reduzir o atual à metade. Na hipótese de derrota no Congresso, Fernando Henrique reprisaria o fiasco da segunda metade do governo Sarney, pós-Plano Cruzado, que se resumiu na contemplação impotente do próprio fracasso.
Para não perder a reeleição, a saída é uma só: ceder às pressões do Congresso. Quando o senador Sarney, num aparente ato falho, disse que muitos dos integrantes da frente ampla aceitariam a reeleição em troca da desistência de privatizar a Vale do Rio Doce, estava dando um recado claro: ou a reeleição ou a privatização - pelo menos neste momento. O recuo do governo mostra que o recado foi assimilado.
É claro que nem todos os que integram a frente pró-Vale têm essa visão partidária e utilitária da causa. Com toda a certeza, Sarney, Brizola e Lula têm interesses diferentes dos de Barbosa Lima Sobrinho, presidente da ABI, ou de Ernando Uchoa Lima, presidente da OAB. Essas duas instituições defendem o interesse nacional; aquelas lideranças partidárias, o interesse de seus respectivos projetos políticos. Fernando Henrique, neste momento, está mais preocupado em não colidir com o interesse político-partidário.
Por essa razão, há pressa em votar a reeleição. O governo quer ver esse assunto resolvido até março, na máximo. O Congresso tentará esticar o prazo, em busca de maiores dividendos políticos. A reforma ministerial acontece nesse ínterim.
É uma etapa da caça aos votos - uma etapa complicadíssima, comparável apenas ao malabarismo estratégico de Tancredo Neves para formar um ministério capaz de elegê-lo pelo colégio eleitoral em 84. Tancredo venceu o desafio e foi eleito, mas não sobreviveu para conferir a inviabilidade operacional do monstrengo político que fabricou.





