O custo da reeleição
O presidente Fernando Henrique não é exatamente um político ingênuo. Sabia, desde o início, que, ao colocar o tema de sua própria reeleição ao Congresso, estaria deflagrando um monumental festival de apetites e fisiologismos. Parte ponderável dos integrantes da instituição fala sobretudo este idioma: o do toma-lá-dá-cá.
Não deu outra: desde que o tema foi posto em debate, numerosas lideranças não têm feito outra coisa senão criar dificuldades para negociar facilidades. De dentro da própria base política do governo começam a surgir idéias que contrariam os propósitos do presidentes.
Basta acompanhar os desdobramentos da eleição para as mesas diretoras da Câmara e do Senado. São os partidos favoráveis ao governo que mais brigam entre si - e com o governo. Os nomes preferidos do presidente da República são contestados. A aparência é de rebeldia, mas a realidade e outra: trata-se de pragmático jogo de interesses.
A comissão especial da Câmara que examina a reeleição decidiu convidar personalidades públicas para falar do tema. O objetivo? Criar ambiente polêmico. Por isso mesmo, até aqui, predominam convidados críticos à iniciativa. Esta semana, falam Brizola e Paulo Brossard. Na passada, falaram Ciro Gomes e Maluf. Todos, obviamente, contra.
Paralelamente, prosperam teses adversas ao objetivo do presidente. Uma delas, do governador do Paraná, Jaime Lerner, que é do PDT, mas apóia Fernando Henrique (e anteontem falou na comissão especial da Câmara) sugere o seguinte: reeleição de prefeitos, governadores e presidente da República, sim, mas não para os atuais titulares. Reeleição desses só mediante referendo popular.
A eleição para as mesas diretoras da Câmara e Senado é um capítulo à parte. Dentro da tradição brasileira, o Executivo sempre interferiu ou mesmo decidiu essa eleição. No tempo do autoritarismo, a eleição era fictícia. O plenário homologava o nome decidido pelo presidente da República. No tempo da democracia, não é muito diferente. O que muda é o custo do processo.
Na ditadura, o custo do Parlamento já estava embutido na sua própria existência formal e decorativa. Na democracia, nos termos em que é ainda praticada no Brasil, esse custo varia de acordo com a importância que o Executivo dá ao que está sendo negociado. Desnecessário dizer que a reeleição tornou-se prioridade absoluta do presidente.
Trata-se de uma espécie de tudo ou nada, que começa com a reforma do Ministério para reacomodar a base parlamentar. Vitoriosa a emenda, o governo estará fortalecido para retomar suas metas fundamentais. As reformas pendentes serão reiniciadas, com amplas chances de vitória. Havendo, porém, revés, o governo simplesmente acaba. Não terá força política para nenhum empreendimento de grande envergadura. O Congresso sabe que possui a chave desse processo. Por isso, joga duro - e cobra caro o seu apoio.

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