Fim do isolamento
Com considerável atraso, as principais lideranças do PT - Lula e Luiza Erundima, entre outros - começam a despertar para a necessidade de política de aliança. Se houvessem despertado para a questão nas eleições presidenciais de 89, vencidas por Fernando Collor, PT e PDT poderiam ter vencido com folga.
O fiasco petista nas eleições municipais deste ano, em que foi superado pelo minúsculo PSB, mergulhou suas principais lideranças em crise existencial. Lula teme o isolamento. Erundina viu o problema antes, ainda no começo da campanha para a prefeitura paulistana.
Chegou a propor alianças com PSDB e setores mais avançados do PMDB. Quase foi crucificada pelos setores mais xiitas de seu partido. Seu candidato a Vice, ex-deputado Aloiso Mercadante, foi o primeiro a protestar contra a idéia. Erundina foi obrigada a recuar, mas não mudou seu pensamento. A chave do sucesso do PSB, que faz parte da hoje escassa confraria de partidos esquerdistas, foi uma só: o partido fez alianças - com PMDB, PSDB, PPS, entre outros.
O PT tem dificuldades de aliar-se a si mesmo. É um partido retalhado em numerosas sublegendas, que brigam mais entre si que com os adversários. Basta perguntar a atuais e ex-governantes petistas - entre outros, Cristovam Buarque, Victor Buaiz e a própria Erundina - quem os incomoda mais - se a oposição ou se o PT.
Esse comportamento singular gerou o presente isolamento, que a cúpula partidária começa a entender que precisa ser rompido, sob pena de o partido definhar e sumir. A liderança nacional emergente do partido, o prefeito de Porto Alegre, Tarso Genro, é outro que critica há tempos a política isolacionista. Não é à-toa que vem sendo apontado como nome ideal para disputar a Presidência da República, substituindo Lula, que já soma três derrotas em eleições majoritárias - uma para governador de São Paulo, duas para presidente da República.
Sem alianças, diz Tarso Genro, o PT não assume o poder. Lula, não se sabe se por ciúmes da crescente notoriedade de Genro, começa a falar idioma parecido. Tem dito que o PT precisa de estratégia para combater o atual governo e que não basta simplesmente condená-lo. ‘‘É preciso saber o que estão fazendo neste momento nomes como Ciro Gomes, Itamar Franco ou José Sarney. É preciso ver em que medida o projeto político deles coincide com o nosso e viabiliza uma união de forças’’, diz ele.
Lula e Sarney, ex-presidente do PDS? Lula e Ciro Gomes, que iniciou sua carreira na extinta Arena? Lula e Itamar Franco, cujo governo o PT se recusou a apoiar e quase expulsou Luiza Erundina porque aceitou ser ministra? Os tempos são outros. O PT parece empenhado em encerrar a fase de soberba, em que, segundo pilhéria no meio político, só fala com Deus - e para dar conselhos. Resta saber como os xiitas petistas reagirão a estes tempos pragmáticos que se anunciam.

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