A lógica dos sinceros

O presidente Fernado Henrique considerou insinceros os críticos da reeleição. Não apenas eles, porém: sinceridade é moeda de escassa circulação em política. Prevalece, no meio, a máxima segundo a qual as palavras devem esconder e não revelar os pensamentos.
O próprio presidente - e basta ir aos arquivos dos jornais para conferir - negou repetidas vezes que tivesse qualquer interesse na reeleição ou mesmo que fosse se empenhar por ela. A certa altura, no entanto, passou a considerar que a causa era justa, legítima e democrática e, como tal, merecia ser considerada pelo Congresso.
Desde então, a causa tornou-se uma obsessão, que o presidente busca dissimular, com declarações em que procura transmitir, sem êxito, a impressão de que não tem nada a ver com isso. ‘‘Não estou interessado na reeleição’’, disse há dias na África. O presidente definitivamente (e graças a Deus) não é um bom ator.
Não foi, porém, só o presidente que mudou de opinião. Paulo Maluf, que sustentou na comissão especial da Câmara que a causa era, inclusive, inconstitucional, defendeu-a ardorosamente enquanto houve chances de dela beneficiar-se. Há um ano, quando o tema da reeleição foi posto em debate, Maluf aderiu com entusiasmo, na expectativa de mais um mandato na prefeitura. Foi aliás esse entusiasmo que despertou o receio de seus adversários locais, que se uniram para pressionar pelo adiamento do assunto.
A reeleição, como todos sabem, não foi votada antes exatamente para não beneficiar Paulo Maluf. Depois disso, ele gradualmente azedou sua retórica em relação ao governo. Hoje, vitorioso nas eleições municipais e elevado à condição de liderança nacional, adotou discurso oposicionista. Quer que o PPB, seu partido, rompa com o governo e feche questão contra a reeleição. O PPB, que não é formado por escoteiros-mirins, sabe que não convém nem brigar com Maluf, nem com o presidente. Maluf é o que em política se chama de perspectiva de poder, a liderança mais influente do partido. Fernando Henrique é o poder.
Convém estar bem com ambos, e essa ginástica, aparentemente complicada, constitui a própria essência do ato político. O presidente Fernando Henrique, irritado - é, afinal uma causa sua que está em pauta -, diz que é falta de sinceridade. Em outras oportunidades, diria que é pragmatismo ou mesmo molejo dialetíco.
O nome pouco importa. O que continua prevalecendo na cena política é o velho princípio de Getúlio Vargas: não tenha inimigos que não possa transformar em amigos - e vice-versa. Maluf tem sido aluno aplicado. Quem diria que, um dia, estaria lado a lado de Antonio Carlos Magalhães, o carrasco de sua candidatura predidencial em 84?
Os ‘‘insinceros’’ críticos da reeleição, alvos da queixa presidencial, podem ser os aliados de amanhã. E é nessa direção que Fernando Henrique trabalha. Quer Maluf a seu lado.

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