Ruy Fabiano
O enigma Maluf
A dúvida política em torno de Paulo Maluf consiste no seguinte: sua candidatura presidencial é para valer ou apenas o ponto de partida para negociar sua eleição ao governo de São Paulo, em 98?
Que Maluf sempre sonhou com a Presidência da República, não é propriamente uma novidade, mas os revezes que colecionou no passado por precipitar etapas tornaram-se antológicas.
Foi preciso purgar sucessivas derrotas eleitorais para readquirir respeitabilidade pública. Seguramente, não está disposto a reprisar o karma cumprido. Seu ingresso na política deu-se pela via biônica, ainda ao tempo do regime militar. Amigo de dona Yolanda Costa e Silva, conseguiu, por essa via, ser nomeado presidente da Caixa Econômica de São Paulo. De lá, chegou à prefeitura, também por nomeação.
Empresário bem-sucedido - a família é proprietária da Eucatex -, encantou-se pela vida pública. Quis ser governador de São Paulo. Não era tão complicado: bastava garantir os votos da maioria da Assembléia Legislativa do Estado, que eram da Arena, partido do regime militar. Era o final do governo Geisel. Prevalecia o sistema de nomeação dos governadores. As assembléias apenas convalidavam o nome tirado do bolso do colete pelo presidente da República em Brasília.
O nome da escolha de Geisel era Laudo Natel, que já governara o Estado e era amigo pessoal também do general já escolhido para o mandato seguinte: João Figueiredo. Maluf resolveu atropelá-lo. Imaginou que, sendo fiel aliado do regime militar, com numerosas relações entre figurões do sistema, não seria repelido. Mas foi, embora não por uma questão ideológica, mas por ter, com sua ambição, subvertido um processo que se tinha como intocável.
Maluf derrotou Natel e, após expectativas de cassação e impugnação da eleição, foi empossado. A abertura já estave em vigor e ele, involuntariamente, foi o seu primeiro teste. Adquiriu, no entanto, pesado estigma de corrupto, do qual somente após purgar sucessivas derrotas eleitorais começa a se libertar. Não ainda de todo: basta lembrar que Sérgio Motta, quando foi peitá-lo na campanha eleitoral, invocou exatamente o estigma de seu passado, quando o neologismo malufar foi perversamente usado pelos adversários para designar roubo.
Maluf pagou caro os seus pecados políticos. Na primeira tentativa de chegar à presidência, viveu na carne o drama que impôs a Laudo Natel. O colégio eleitoral foi subvertido por Tancredo Neves, que, com sua vitória, o liquidou. Maluf perdeu ainda uma eleição de governador e duas de presidente. Elegeu-se enfim prefeito, recomeçando, pela via democrática, a carreira que começara na contramão. Sente-se agora redimido e em condições de igualdade com qualquer outro democrata.
A Presidência continua a ser o seu sonho, mas, segundo quem o conhece bem, não hesitaria em trocá-la pelo governo de São Paulo, dentro do princípio de que melhor um pássaro na mão que dois voando.





