Racha conservador

Enquanto a oposição a seu governo dava-se à esquerda, Fernando Henrique não tinha muito o que temer. Desarticulados e envolvidos em profunda crise existencial, os partidos de esquerda não ofereciam maiores dificuldades. Não conseguiam sequer uniformizar o discurso contra o governo, além de não parar de brigar entre si.
Eis, porém, que a habilidade política do ministro Sérgio Motta criou o que parecia impossível: o racha no campo conservador. O advento de Paulo Maluf como liderança oposicionista é sobretudo obra da imprevidência política do governo, que o tinha até há pouco como aliado dos mais confiáveis e fervorosos.
A trombada com Maluf começou quando do início dos debates em torno da reeleição, bem antes da companha municipal. Maluf, como se recorda, apoiou de imediato a idéia. Pensava em reeleger-se prefeito. Se, naquela ocasião, o governo tivesse dado sequência ao processo, teria aprovado com relativa facilidade a emenda. Na hora ‘‘h’’, porém, a pressão do PSDB paulista, ao qual são filiados Fernando Henrique e Sérgio Motta, prevaleceu: o governo suspendeu o debate da reeleição para evitar que os prefeitos dela se beneficiassem.
Foi o primeiro golpe em Maluf. O segundo viria a seguir, com o lançamento da candidatura de José Serra à prefeitura. Com ela, o governo deixava claro o seu envolvimento no processo, dividindo sua base de apoio político local e federal. Outra trombada (desnecessária) com Maluf. Serra era o ministro mais identificado com Fernando Henrique. Sua derrota não deixou de ser um revés pessoal do presidente, muito embora a política federal não tenha constado dos debates da campanha, que tratou de questões de natureza paroquial.
A presença de Sérgio Motta, na reta final, quando Serra já estava tecnicamente derrotado, foi uma veemente demonstração de cegueira política. Se havia algum espaço de recomposição política futura entre governo e Maluf, o ministro das Comunicações parecia empenhado em fechá-lo o mais hermeticamente possível. É possível que tenha conseguido. Maluf saiu vitorioso e furioso da campanha.
O PPB, que representa 95 votos no Congresso - 90 na Câmara, cinco no Senado -, está excitado com a aquisição de um presidenciável. O ministro da Indústria e Comércio, Francisco Dornelles, uma liderança do partido, garante que Maluf não é o dono da legenda. Pode ser que não, mas, neste momento, entusiasma-a mais que o ministro.
A expectativa do presidente é reverter esse quadro no tapetão: com a reforma ministerial, com a sucessão no comando da Câmara e Senado, com a renegociação das dívidas estaduais e outros recursos do gênero. É um jogo no qual, por possuir caneta e Diário Oficial, não tem rival, muito embora o oponente não seja um indefeso na matéria.

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