O governo não tem ainda qualquer segurança a respeito do resultado das eleições para o comando da Câmara e do Senado. Trata-se de eleições importantes para definir a correlação de forças no Legislativo, com vistas à aprovação da emenda da reeleição .
Com os atuais presidentes da Câmara e do Senado, Luís Eduardo Magalhães e José Sarney, respectivamente, Fernado Henrique mantém relações boas, embora diferenciadas. Luís Eduardo é aliado confiável; Sarney é apenas aliado. Sutilezas da vida pública.
Sarney é aliado circunstancial, que negocia seu apoio gota a gota, fazendo, sempre que possível, jogo duro. Não se sabe, por exemplo, até aqui, o que efetivamente pensa da reeleição. Já disse que a troca pela retirada da Companhia Vale do Rio Doce da relação de empresas privatizáveis. Luís Eduardo atrelou seu projeto político pessoal ao presidente. Está com ele e não abre e, não por acaso, é o articulador parlamentar da emenda da reeleição.
O presidente empenha-se para que os sucessores de Sarney e Luís Eduardo mantenham ao menos o padrão atual. O acordo inicialmente feito previa o PFL no comando do Senado, com Antonio Carlos Magalhães, e o PMDB na Câmara, com Michel Temer. Extamente o inverso do que hoje ocorre: o PMDB preside o Senado e o PFL, a Câmara. O acordo, porém, está fazendo água. Há ambições explodindo por todos os lados.
Para variar, as manifestações de rebeldia acontecem dentro da base política do governo. Como não há oposição - não ao menos em condições de intimidar o governo -, as contestações surgem entre os próprios aliados. O PMDB na Câmara não está unido em torno de Temer, e muitos pefelistas reagem ao troca-troca. Inocêncio Oliveira, por exemplo. Há ainda o PPB de Maluf, que embora integre a base política do governo e possua um ministro de Estado - Francisco Dornelles, da Indústria e Comércio -, assumiu ares e retórica de oposição. Os deputados Prisco Viana e Delfim Netto disputam a indicação do partido .
No Senado, a candidatura Antonio Carlos Magalhães está sendo contestada pelo PMDB. O partido é majoritário na Casa e sente-se no direito de pleitear o seu comando. O nome de Jáder Barbalho (PA) foi o primeiro a se apresentar para o debate, mas o partido inclina-se por Íris Resende (GO), que possui menos arestas e aglutina mais apoios. Maluf, que estimula dissidências na Câmara, apóia Antonio Carlos Magalhães no Senado, o que é uma maneira interessante de tornar as coisas ainda mais confusas. A confusão, claro, o favorece.
Ainda que consiga contornar todos esses desafios e eleger gente de sua confiança, o presidente Fernado Henrique não terá como evitar os efeitos colaterais do processo. Os derrotados tendem a vender caro seu apoio às causas governistas - a reeleição sobretudo.

mockup