Ruy Fabiano - Brasília
O governo joga todas as suas fichas contra a instalação de uma CPI da reeleição. Teme não apenas que sirva de palanque a seus adversários, como, sobretudo, que inviabilize o próprio processo administrativo. Basta ver o que aconteceu com o governo Collor após a instalação da CPI do PC. O Congresso tornou-se tribunal do Executivo, paralisando-o.
É claro que a analogia se aplica ao que ocorre agora - de certa forma, com muito maior contundência. No governo Collor, a CPI começou investigando PC Farias, que nem cargo público tinha. Não havia, no início, nenhum outro nome de peso envolvido. Havia as denúncias do irmão do presidente, que eram bem mais adjetivas que substantivas. A rigor, não havia provas - só palavras.
Mesmo assim, a partir de mecanismos como quebras de sigilo bancário, telefônico e fiscal - possíveis de requerer em CPI, mas não em comissões de sindicância, como a recém-instalada na Câmara dos Deputados -, desvendou-se a rede de corrupção que ficou conhecida como a República das Alagoas. Do nada, chegou-se ao tudo.
A CPI da reeleição começaria com muito mais substância. De início, a graduação dos investigados: dois governadores, um ministro de Estado - exatamente o mais chegado ao presidente da República - e cinco parlamentares. Mais: há pontos de partida concretos para a investigação. O deputado Ronivon Santiago, por exemplo, diz que recebeu R$ 100 mil e concessões de rádio e televisão. Basta conferir sua conta bancária e as concessões. Idem com os demais, que denuncia.
Uma CPI pode ficar no ar 90 dias, produzindo intensa adrenalina junto ao governo. Inevitável que, nessas ocasiões, adversários transformem a sala de reuniões da CPI em palanque, especialmente agora que a TV Senado transmite tudo ao vivo e em cores. Basta ver o que acontece com o escândalo dos precatórios, tema bem mais inóspito e impenetrável que a clássica compra e venda de votos.
O governo procura dar ordem unida à sua base parlamentar, para que não ceda às tentações políticas de embarcar no embalo publicitário das denúncias. A nomeação, no final da semana passada, de dois ministros peemedebistas inclui-se nessa estratégia. O presidente tendia a manter no Ministério da Justiça Milton Seligman, que, além de ser do ramo, é também do PMDB. Acabou optando por Íris Resende, que não tem nem cacoete de jurista, embora possua liderança e votos na bancada do PMDB no Senado, que deve começar a votar amanhã a emenda da reeleição.
Irônica conjuntura enfrenta o governo: para abafar denúncias de fisiologismo, depende da boa vontade de aliados fisiológicos, sem os quais não dispõe de maioria em nenhuma das duas Casas do Congresso. Pior: na medida em que insiste em considerar que tudo não passa de uma onda e que não há por que suspeitar de Motta, fortalecem-se as argumentações em prol da CPI.





