Ruy Fabiano - Brasília
Lula perdeu o primeiro round para Tarso Genro na corrida presidencial dentro do PT. O presidente do partido, José Dirceu, decidiu antecipar para o mês que vem a discussão interna oficial em torno do nome que disputará a sucessão com Fernando Henrique.
Lula acha que é cedo; Tarso Genro acha que está mais que na hora. José Dirceu, posto diante do dilema, optou pela argumentação de Tarso. Os presidenciáveis do PT, até aqui, são mesmo Lula e Tarso. Entre ambos, há mais que divergências de prazos.
Lula quer alianças com partidos de centro e de centro-esquerda - e cita, como exemplo, a porção não-quercista do PMDB. Tarso não crê em alianças partidárias fora da esquerda, onde, tirando o PT, todos os partidos são pequenos. Crê, no máximo, em alianças com personalidades. Lula, não: pela primeira vez, fala em alianças suprapartidárias e não ideológicas. Diz que o PT perdeu sucessivas eleições presidenciais exatamente porque confundiu eleição com ideologia. Eleição, diz ele, é política - e política pressupõe alianças.
Tarso pensa diferente. Acha que, mais que nunca, o PT precisa afirmar sua condição de esquerda, de modo a polarizar a sociedade. Diz que as bandeiras de centro-esquerda serão desfraldadas por outras candidaturas e que, se o PT insistir nesse caminho, verá seu discurso diluir-se. Possivelmente em função dessa divergência de pontos de vista, que se reflete nas diversas correntes internas do partido, o presidente José Dirceu tenha decidido antecipar o debate.
Lula o queria em dezembro deste ano. Tarso acha que, se ficasse para essa ocasião, não haveria tempo de viabilizar nenhum outro nome fora do próprio Lula. Talvez isso explique o ponto de vista de Lula. É possível que a opção pelo prazo de Tarso Genro já indique um certo desgaste interno do nome de Lula, que já perdeu duas eleições sucessivas, sendo que a passada de goleada, ainda no primeiro turno.
Tarso é liderança emergente, de sólido prestígio estadual, com razoável experiência administrativa - fez excelente gestão na prefeitura de Porto Alegre e elegeu seu sucessor - e já foi citado até por Fernando Henrique como exemplo de oposicionista eficaz e consequente. Se o partido se inclinar por ele, terá sido mais que uma simples troca de nomes. O fim do reinado de Lula, confirmando-se essa mudança, seria uma mudança na própria identidade do PT, que nasceu nas bases sindicais do ABC paulista, aliou-se ao clero católico e teve na imagem e no sotaque do ex-torneiro mecânico sua melhor tradução.
Lula, Genro e Dirceu terão, nos próximos dias, excelente oportunidade para acertar seus ponteiros longe da efervescência partidária. Eles viajam ao Chile para participar de seminário político. Dirceu acha que, mesmo antecipando o debate, apenas em agosto, por ocasião de encontro nacional do partido, a candidatura petista será definida. Seja como for, o PT já não é o mesmo.





