Ruy Fabiano - Brasília
A falta de sintonia do discurso e da linguagem dos partidos políticos com a sociedade faz com que se reproduza, em plena vigência do regime democrático, quadro semelhante aos dos tempos do arbítrio.
Mais uma vez, a vanguarda das lutas políticas e sociais não tem origem nos partidos, nem é conduzida por eles. É novamente de dentro da sociedade civil que emergem os temas fundamentais do processo político e social brasileiro, conduzido sem a intermediação de lideranças partidárias - o Movimento dos Sem-Terra, por exemplo.
Os partidos tentam pegar uma carona (caso do PT com o MST), mas fica claro que estão sobrando. Temas como reforma agrária, privatização, direitos sociais, desemprego, direitos humanos, entre outros, são vocalizados diretamente por entidades como OAB, ABI, CNBB, Movimento dos Sem Terra, organizações Não-Governamentais, entre outros.
Os partidos perderam a credibilidade (que, a rigor, jamais chegaram a adquirir efetivamente). Ao tempo do regime militar, a inexistência de liberdade de organização partidária condenava o debate político a um fio estreito de legalidade, dentro de duas organizações partidárias artificiais, criadas por decreto: MDB e Arena. A saída concebida pela sociedade foi transformar entidades classistas e representativas em trincheira circunstanciais da luta política.
Foi nesses termos que se deu o processo de redemocratização, que, entre suas primeiras conquistas, devolveu ao país a liberdade de organização partidária. Proliferaram, a partir de então, numerosas siglas, vocalizando praticamente o arco do pensamento político. No meio delas, as chamadas siglas de aluguel, meros balcões de negócios.
O desgaste desses partidos, mesmo os mais representativos, foi rápido e implacável, em decorrência do salve-se-quem-puder que se estabeleceu no processo político, onde predomina a ação clientelista. Hoje, estão todos novamente a reboque da sociedade. A luta contra a privatização da Vale do Rio Doce, por exemplo, tema presente, é capitaneada por OAB, ABI e CNBB, que, em decorrência do vácuo partidário, transformaram-se em grifes políticas de peso.
Não é o grito de Leonel Brizola, Itamar Franco ou Lula que está mobilizando a sociedade, mas o peso da autoridade daquelas siglas, preservadas do desgaste do fisiologismo a que se expuseram os partidos. O problema é que OAB, CNBB e ABI não governam. Não têm voto no Congresso, nem canais institucionais de negociação com o Executivo.
Ao tempo da ditadura, conseguiam insuflar a sociedade contra os excessos e, por meio de pressões, obrigar o governo a apressar a redemocratização. Agora, não se trata de derrubar o governo ou mudar o regime. Trata-se de estabelecer novos padrões de governabilidade, o que somente parece viável pelos canais partidários, em franca deterioração. Por isso mesmo, a mais urgente das reformas continua sendo a política - não por acaso, a mais indesejada.





