Rússia: Glasnost, até que ponto?
Márcio C. Coimbra
A Rússia mais uma vez sofre. O acidente com o submarino nuclear Kursk deixou os russos e o mundo perplexos. Ficou claro o grau de deterioração da estrutura da ex-URSS. Mais uma vez o mundo ficou atônito diante da falta de transparência que marca a história das instituições da Rússia. A população chora a perda de 118 vidas no mar de Barents, depois de uma política de salvamento desastrada e insegura. O presidente Vladimir Putin, de férias em um balneário do Mar Negro, demorou para reconhecer o acidente e esperou demais para aceitar a ajuda da comunidade internacional.
O povo russo sofre há muito tempo. Padeceu durante a época do czares com um regime ditatorial sem liberdades. A vitória dos bolcheviques liderados por Vladimir Lênin em 1917, parecia o início de uma nova era, com um sopro de mudanças. Entretanto, apesar do regime socialista implantado na União Soviética ter modificado completamente a estrutura do país, com alguns benefícios para a população, trouxe consigo um regime ditatorial que perseguia aqueles que não concordavam com a nova ordem. Neste modelo, o Estado, com um planejamento centralizado, detinha o controle dos meios de produção e havia falta de liberdade política e econômica. A figura forte do Estado e seu mandatário maior (secretário-geral do PC) era a principal característica do modelo. Dentro desta chamada ‘‘ditadura do proletariado’’, dirigido por uma pequena nomenclatura, ou seja, os membros do partido comunista, desenvolveu-se a União Soviética durante o século 20.
A URSS se caraterizou por ser um país extremamente reservado perante a comunidade internacional durante os anos socialistas (1917-1991). Era de tal maneira fechado, que se criaram vários mitos em relação a ela. De lá somente vinham notícias de sucesso. Todas as informações liberadas ao mundo eram cuidadosamente filtradas. A corrida espacial foi uma prova disto. O lançamento do primeiro satélite artificial em 1957 e o primeiro homem no espaço, um russo, Yuri Gagarin, criavam a sensação de um país desenvolvido, forte e com êxitos sucessivos. Enquanto isso, do outro lado do mundo, o maior concorrente soviético, os Estados Unidos, colhiam alguns sucessos, porém, passando por alguns fracassos. Exemplos desta oscilação foram o Projeto Vanguard em 1957, quando um foguete americano explodiu no lançamento e o Projeto Redstone, um ano após, colocando o satélite Explorer em órbita com sucesso. Enquanto os EUA, baseados nos valores liberais, realizavam tentativas abertas, com possibilidade de êxito ou fracasso, a política de vitórias sucessivas e sem vacilações da União Soviética era baseada na divulgação de informações boas e principalmente na ocultação de episódios ruins.
A atitude soviética começou a mudar com Mikhail Gorbachev em 1985. Verificando a irreversível decadência do regime, onde o povo vivia com racionamento de alimentos e falta de liberdade, tentou-se uma abertura lenta. Ela se baseava em dois valores básicos: a Glasnost, significando ‘‘transparência’’ e a Perestroika, que significa ‘‘reestruturação’’. Era uma mudança total da concepção soviética de Estado. Este iria se abrir aos poucos, transmitindo a transparência de suas ações e estruturas. As mudanças não ocorreram da maneira imaginada por Gorbachev. Com sua saída, as mudanças ocorreram rápido demais, perante um Estado que não se preparou para o ritmo da abertura que foi colocada em prática. Hoje, o mundo tem a sensação que está diante de um país descontrolado, economicamente perigoso, onde ocorre um imenso crescimento do poder da Máfia e herdeiro de um grande arsenal nuclear impossível de ser sustentado.
O que se viu no episódio do submarino Kursk foi a maior prova de que apesar da mudança do regime, o velho costume baseado na ocultação de fatos continua o mesmo. Apesar de hoje a Rússia viver em uma democracia, os dirigentes tomam as mesmas atitudes temerárias dos antigos dirigentes soviéticos. No dia 12, o presidente Putin foi informado do acidente apenas poucas horas após o ocorrido. Entretanto, somente comunicou a opinião pública dois dias depois. Além disso, as autoridades russas recusaram a ajuda internacional da Noruega, dos Estados Unidos e da Inglaterra durante quatro dias, temerosos, talvez, em ferir o orgulho russo.
O triste incidente com os tripulantes do Kursk, acompanhado em tempo real pela população mundial, mostra-nos que não existe espaço no mundo para a falta de transparência das atitudes do Estado, o maior e mais triste resquício dos tempos do regime fechado. Mostra a falência do antigo modelo, que se de um lado vivia de sucessos militares, do outro agonizava pela insuficiência de alimentos para o povo. O governo russo deve saber que ao contrário da época passada, a melhor atitude de um Estado nos dias de hoje é dar mais valor a vida humana de seu povo, considerando-a mais importante que o vazamento de segredos militares. Será que a Glasnost, aquilo que a mudança de regime trazia de melhor, está sendo lembrada?
- MÁRCIO C. COIMBRA é advogado em Porto Alegre
[email protected]

mockup