Rumos para a agricultura - Vânia Sala
Rumos para a
agricultura
Os crescentes movimentos da agricultura orgânica e da biotecnológica põem em questão se a forma de cultivo tradicional está suprindo as necessidades e exigências dos mercados produtores e consumidores mundiais. A cada dia aumenta a preocupação das pessoas com os caminhos da humanidade, busca-se uma melhor alimentação com menores riscos à saúde, deseja-se aumentar a produção de alimentos para melhorar as condições subumanas e humanas das populações mundiais. Na medida em que estas e muitas outras questões emergem, as dúvidas, riscos e obscuridades cruzam o caminho da agricultura.
Aderir ou não ao plantio comercial dos transgênicos? Frente a guerra comercial que o assunto está provocando entre EUA e União Européia, a questão coloca autoridades, cientistas, consumidores e produtores numa encruzilhada, prestes a tomar uma decisão que pode afetar drasticamente o modelo de produção e os mercados que consomem nossos produtos agrícolas. Contrário a esse avanço tecnológico, o homem tenta contornar as deficiências do sistema tradicional de cultivo sem utilizar defensivos químicos e fertilizantes também químicos com a agricultura orgânica.
Os consumidores brasileiros estão receptivos aos produtos orgânicos apesar dos preços serem cerca de 30% mais elevados em relação aos produtos da agricultura tradicional, já é possível encontrar áreas específicas dentro dos supermercados oferecendo esses produtos, sendo que o mercado no Brasil movimenta de US$ 3 milhões a US$ 5 milhões.
Na Itália, em menos de três anos o número de produtores orgânicos cresceu de 4 mil para 15 mil até 1996. A produção está distribuída em 20% de cereais, 19% de vegetais, 16% de forrageiras, 16% de citros, 15% de outras frutas, 5% de vinho e azeite e 9% de outros. Considerando todos os elos das cadeias agrícolas, o setor orgânico movimenta na Itália anualmente US$ 1,1 bilhão.
Para a implantação de biotecnologias, as perspectivas são de que elas proporcionem condições para um desenvolvimento econômico mais integrado e equilibrado entre a agricultura e o setor industrial. No contexto da agricultura brasileira, a biotecnologia tem promovido o desenvolvimento de plantas de melhor qualidade, mais resistentes a adversidades ambientais, além de formas adequadas ao processamento industrial. As duas principais formas conhecidas de modificações transgênicas na agricultura do Brasil, em pesquisas e testes de campo, são a resistência a herbicidas e a resistência a insetos.
O desenvolvimento de materiais modificados pode gerar ganhos monopolísticos à indústria de pesquisa, desenvolvimento e sementes, principalmente se avaliarmos as grandes fusões e novas aquisições de empresas da área que compilam um mercado cada vez mais concentrado. Também se deve considerar que o gene modificado de posse de algumas empresas deva necessariamente ser embutido em vetores adequados às condições regionais do Brasil, para que os agricultores brasileiros não se tornem mercado consumidor de mais um pacote tecnológico do primeiro mundo.
Devem ser considerados, paralelamente, os limites impostos pela existência de variedades substitutas de domínio público, às quais o consumidor, no caso o produtor agrícola, poderá recorrer sempre que as margens forem excessivas, ou mesmo a reutilização da semente em novos ciclos. Através deste enfoque, o uso de plantas transgênicas será uma escolha superior em face das variedades existentes no mercado.
O produtor não tem garantias de que irá beneficiar-se ou prejudicar-se com a biotecnologia; inevitavelmente, há a presença de material modificado nas prateleiras dos supermercados brasileiros, o fato é que a população desconhece.
O País tem grande interesse pela agricultura de alto rendimento, com aumento da produtividade das culturas e até ocupação de algumas novas áreas para cultivo agrícola. Apesar da condição de terceiro mundo, o Brasil possui tecnologia para desenvolver produtos agrícolas geneticamente modificados, além de centralizar a maior diversidade biológica do mundo, produzir ou não organismos geneticamente modificados será uma opção que o mercado direcionará.
- VÂNIA SALA é acadêmica de agronomia e estagiária do Programa Paraná-Europa em Londrina





