Dá para imaginar os dois candidatos presidenciais, Dilma Rousseff e José Serra, discutindo em latim clássico, abrandado pelo Concílio ainda ao tempo de João XXIII, como se ajustam os seus respectivos programas às encíclicas desde a Rerum Novarum até as de João Paulo II, passando pela ''Mater et Magistra'' e ''Pacem in Terris''. É evidente também que não o fariam já que haveria o risco de perder o apoio de outros segmentos religiosos dos evangélicos aos espíritas. E a compulsão de ambos é para faturar, pouco importando a convicção de cada digladiante, mimetizada no calor dos debates.
O que não é aceitável é ver uma temática, de traço e ranço fundamentalista, como a do aborto, transformada em discurso prioritário, enquanto nada se avalia sobre as questões de ordem macroeconômica e possíveis efeitos deletérios da capitalização da Petrobras, notoriamente acidentados, ou de uma possível ressaca no quadro brasileiro em função da balança negativa e do câmbio desajustado. Para isso criaram um maniqueísmo bem ao gosto dos marqueteiros entre o clima existente no atual governo Lula e o de Fernando Henrique Cardoso ao qual a situação deve a estabilidade da moeda e os passos de racionalidade nas agências reguladoras, privatizações e, sobretudo, na Lei de Responsabilidade Fiscal, pré-requisitos indispensáveis ao Estado moderno.
Não se lamenta apenas a desonestidade intelectual dos candidatos, que para se fixarem bem diante de questões confessionais, traem as suas atitudes anteriores de aberta oposição ao fundamentalismo, seja por declarações e entrevistas ou por posturas assumidas na gestão pública, caso de José Serra que como ministro da Saúde jamais poderia ignorar o que representa o aborto nos indicadores de mortalidade materna, quando se sobressai a sua dimensão mais relevante, a de saúde pública.
Enquanto os mineiros chilenos de Atacama reencontraram a luz, nós marchamos celeremente para a escuridão. Mais um pouco e teremos a Ku-Klux-Klan.

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