Tirando as áreas de fronteira, que concentram alguns dos municípios mais violentos do País - entre eles Foz do Iguaçu -, as taxas de homicídio, no Brasil, estão caindo nas grandes metrópoles e ®MDNM¯aumentando nas cidades de interior. A conclusão é do relatório da Rede de Informação Tecnológica Latino Americana - ONG internacional presente em dezenas de países.

Coordenador do documento, o sociólogo Júlio Jacobo Waiselfisz, ressalta que a violência explodiu entre os jovens, cuja taxa de homicídio mais de que duplicou desde 1979. Nascido na Argentina e radicado no Brasil há 30 anos, Waiselfisz ressalta, nesta entrevista, as medidas que estão à disposição das administrações municipais para encampar a luta contra a violência.

Por que a violência cresce nas cidades de porte médio e cai nas maiores?
Houve uma mudança interessante neste fenômeno a partir de 1999. Até aquele período, a violência crescia muito nas metrópoles e era pequena nas cidades menores. Dali em diante passou a se registrar um descréscimo nas cidades de maior densidade populacional, e um aumento nas cidades pequenas. Fundamentalmente, isso se deve a três causas. A primeira é que as grandes cidades passaram a ser contempladas com grande volume de recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública, o que permitiu melhorar a qualidade e a infra-estrutura das polícias. A segunda foi o crescimento da economia nas cidades intermediárias, o que atraiu uma massa populacional que não tinha emprego nas cidades grandes e que está mais sujeita à criminalidade. Em terceiro lugar, o crescimento das cidades menores permitiu uma melhoria dos sistemas de registros de óbitos e a redução dos cemitérios clandestinos.

No cômputo geral, a violência do País cresceu ou diminuiu?
Há dois grandes períodos significativos, um até 2003, quando a violência homicida foi contínua e sistematicamente crescente a 5,5% ao ano. A partir de 2003, começou a cair. O que explica essa queda, em primeiro lugar, é o estatuto do desarmamento, e em segundo lugar, a campanha do desarmamento. Com isso, retirou-se de circulação mais de 400 mil armas de fogo, o que significa que a redução da arma de fogo é fator fundamental para enfrentar a violência.

A polícia atribui, com frequência, a violência ao narcotráfico. Isso é real?
Há uma mitificação interesseira. Não que o narcotráfico não tenha influência considerável, especialmente no Rio de Janeiro, mas isso não pode ser estendido para todo o País. Em 2000, pesquisa feita no Hospital da Restauração, no Recife, que tomou por base as internações por ferimentos à bala, concluiu que quase 60% são vítimas dos chamados crimes de proximidade, nos quais um familiar, um vizinho, amigo ou colega, por motivos banais e fúteis, pegam uma arma e atiram. Pouco tempo depois, outra rede de hospitais, tomando como base Salvador e Brasília, fez estudo semelhante e chegou à mesma conclusão: crimes profissionais, de malandragem, são minoria. Nosso maior problema é a cultura da violência e a saída não é colocar um policial em cada casa.

Qual o diagnóstico da violência contra os jovens?
Basicamente nos leva a uma conclusão muito rígida: a história da violência homicida no Brasil é a história do extermínio da juventude. Entre 1979 e 2006, o grupo populacional, a média de homicídios entre quem tem menos de 15 e mais de 24 anos se manteve em 21 por grupo de 100 mil habitantes. Já a população jovem, de 15 a 24 anos, registrou aumento de 25 para 54 homicídios a cada 100 mil habitantes.

Curitiba é uma das cidades mais ricas do País e tem índices de violência superiores a capitais como Fortaleza e Salvador. O que explica isso?
A dependência histórica da violência com pobreza não se justifica com base nos dados. Se isso fosse verdade, os estados mais pobres, como Maranhão e Piauí, por exemplo, teriam sido mais violentos, e não são. Pelo contrário, estados mais ricos, como Rio de Janeiro e São Paulo, são os mais violentos. A análise indica que a violência não emerge da pobreza quando a pobreza é homogênea, ela emerge dos espaços em que há extremos de riqueza e pobreza.

Iniciativas municipais podem ajudar a reverter a violência?
São Paulo é o único estado a reduzir sistematicamente suas taxas de violência desde 1999, devido ao esforço municipal. Lá se constituiu o fundo metropolitano de segurança pública integrado pelos 29 municípios da região metropolitana e gerido por uma instituição da sociedade civil, o ''Instituto São Paulo Contra a Violência'', que começou a tomar medidas tipo escola aberta e Lei Seca. Guardas Municipais armadas foram outra boa iniciativa, além de programas de atendimento à juventude. São medidas que deram certo e explicam porque fizemos o mapa: para alimentar as autoridades de informações sobre sua própria realidade.

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